Em todas as culturas, a encruzilhada permanece como um espaço de transição, escolha e poder — um território simbólico onde diferentes realidades se encontram e onde o destino pode ser alterado. Poucos lugares, no Brasil, expressam tão bem essa condição quanto o Recôncavo da Bahia. O Recôncavo é uma formação histórica, cultural e civilizatória marcada por encontros, conflitos, permanências, insurgências e reinvenções. E foi justamente nessa condição de encruzilhada que a experiência da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia se constituiu.
Desde o início, a UFRB precisava nascer como uma universidade capaz de disputar o próprio sentido da ideia de universidade no Brasil. Não bastava interiorizar vagas, multiplicar cursos ou desconcentrar equipamentos públicos. Era necessário construir uma instituição intelectualmente ousada, socialmente enraizada e civilizatoriamente consciente do território em que se inscrevia.
Lembro-me de uma audiência pública da campanha pela UFRB, realizada em Nazaré das Farinhas, em 2003. Um jovem professor, ligado ao Movimento Negro Unificado, disse algo leve e profundamente sério: “Com a UFRB, o Recôncavo será Wakanda!”
A metáfora me pareceu luminosa. Wakanda, o país africano fictício do universo Marvel, imaginado como uma civilização capaz de preservar sua identidade histórica e cultural ao mesmo tempo em que desenvolve altíssima sofisticação científica e tecnológica. Uma sociedade que soube escolher, com autonomia, o que incorporar do mundo e o que preservar de si mesma. Uma sociedade que, sem abrir mão da ancestralidade, foi capaz de produzir ciência de fronteira, invenção, soberania e futuro.
É isso que desejamos para o Recôncavo e para a universidade que ousa levar o seu nome: uma instituição capaz de apontar para um projeto de desenvolvimento que articule, de forma criativa e soberana, ciência radicalmente avançada e profundo respeito às ancestralidades que constituem o território. Não uma universidade que apenas acolha a diversidade como apêndice moral. Tampouco uma universidade colonizada, fascinada por modelos externos e incapaz de reconhecer a densidade epistêmica do chão onde pisa. O desafio é construir uma universidade capaz de fazer ciência de ponta sem romper com a memória longa do povo, uma universidade capaz de produzir futuro sem esquecer de suas raízes.
Esse foi o nosso delírio de realidade.
No fundo, essa talvez seja uma das questões centrais para qualquer reflexão consequente sobre o Brasil: como incorporar dimensões universais do conhecimento e da técnica sem abdicar das forças afirmativas do nosso modo de ser? Como produzir desenvolvimento material sem perder a espessura simbólica, histórica e espiritual que nos constitui? Como evitar tanto a recusa ressentida da modernidade quanto a submissão acrítica a modelos exógenos?
A busca por essa espécie de síntese Wakanda não é nova entre nós. Ela atravessa, de diferentes formas, a história intelectual brasileira. Talvez tenha encontrado em Oswald de Andrade a sua formulação mais potente, por meio da antropofagia cultural: a ideia de devorar o mundo para recriá-lo a partir de nós mesmos. Não se trata de cópia, nem de isolamento. Trata-se de incorporação crítica, seleção ativa, reelaboração criadora.
Essa questão reaparece de maneira interessante em um diálogo ocorrido no Roda Viva (TV Cultura), em 1996, quando Eduardo Giannetti da Fonseca perguntou a Caetano Veloso se não haveria um desencontro insuperável entre o nosso coração Yorubá, a nossa alegria de viver, a nossa espontaneidade e a aspiração aos valores básicos da vida civilizada moderna, como o respeito às leis e a realização dos valores republicanos. A resposta de Caetano foi extraordinária: mais do que combinar essas dimensões, o Brasil talvez tivesse a possibilidade de tomar posse da civilização e de incorporá-la sem sucumbir à frieza e à rigidez da vida moderna.
É precisamente esse o ponto. A questão não é escolher entre tradição e modernidade, entre ciência e cultura, entre tecnologia e ancestralidade. A questão é produzir uma síntese superior, intelectualmente exigente e historicamente enraizada. E é aqui que uma universidade como a UFRB ganha relevância estratégica.
A UFRB para estar à altura do Recôncavo, não pode ser tímida na construção da ciência. Não pode se contentar com a mera reprodução de currículos convencionais ou com a repetição subordinada de agendas científicas definidas em outros centros. Precisava ser radical na construção do conhecimento. Radical no sentido mais forte do termo: ir à raiz dos problemas, interrogar os fundamentos, deslocar os centros de legitimação, formular perguntas novas, abrir trilhas inéditas, produzir ciência rigorosa, original e internacionalmente dialogável a partir de um território historicamente subalternizado.
Mas essa radicalidade científica só fará sentido se vier acompanhada de uma radicalidade equivalente no respeito à ancestralidade. Não se trata de um gesto de deferência simbólica. Trata-se de reconhecer que os povos, práticas, cosmologias, linguagens, técnicas e pedagogias que constituem o Recôncavo são também fontes de inteligência histórica, formas de elaboração do mundo, modos densos de conhecimento, tecnologias sociais de longa duração, arquivos vivos de experiência civilizatória. Precisamos aprender a nos reorganizar a partir deles, sem abdicar da exigência científica, mas também sem impor a arrogância epistemológica de quem acredita que só há conhecimento legítimo sob a forma disciplinar moderna.
Foi exatamente esse o horizonte que, em alguma medida, buscamos construir na UFRB. Desde o início, a universidade se apresentou como lugar de encontro entre movimentos, demandas sociais, sujeitos históricos e formas diversas de produção do saber. Aqui se encontraram os movimentos do campo e da reforma agrária, a educação do campo, o movimento negro, as comunidades quilombolas, indígenas, as lutas por inclusão e educação especial, os projetos de formação de professores, as demandas da saúde pública, engenharia, cultura e sustentabilidade.
Esses encontros não foram laterais nem decorativos. Eles moldaram a identidade da instituição. A universidade não se limitou a recebê-los; foi se constituindo por eles. E isso é decisivo. Porque uma universidade verdadeiramente viva não é apenas aquela que produz conhecimento sobre a sociedade, mas também aquela que se deixa interpelar por ela, que se reorganiza a partir das suas urgências históricas, que aceita ser deslocada pelas vozes que chegam das margens e pelos mundos que a ciência institucionalizada, muitas vezes, não soube escutar.
Sempre nos pareceu fundamental afirmar algo que por vezes é mal compreendido: o reconhecimento dos saberes populares, territoriais e ancestrais jamais significou recusa à ciência moderna. Sempre consideramos essencial apoiar também o desenvolvimento da ciência básica, das formações mais ortodoxas, da pesquisa laboratorial rigorosa, da excelência técnica, da produção acadêmica com capacidade de interlocução universal.
Uma universidade Wakandiana é aquela capaz de desenvolver biotecnologia, medicina, engenharia, agricultura, artes, humanidades e inovação sem precisar cortar as suas ligações com a memória profunda dos povos que a sustentam.
Isso exige mais do que políticas de acesso, embora elas sejam decisivas. Exige mais do que cotas, mais do que programas de permanência, mais do que inclusão curricular pontual. Exige um projeto institucional explícito, traduzido nas suas ações pedagógicas e administrativas, capaz de traduzir o tipo de futuro que queremos ajudar a construir.
Toda universidade responde a essa pergunta, queira ou não. Responde em seus currículos, em seus cursos, em seus silêncios, em suas prioridades de pesquisa, em sua concepção de excelência, em suas alianças institucionais e em seus critérios de reconhecimento. O que deve nos diferenciar é a consciência da resposta que ofereceremos.
A tarefa da UFRB, desde a sua origem, é precisamente essa: não apenas levar a universidade ao Recôncavo, mas permitir que o Recôncavo transforme a ideia de universidade.