• Home
  • Apresentação
  • Quem somos
  • O que é?
  • Nossas ações
  • Parceiros
  • Blog
  • Fale conosco
  • Projetos ativos
  • Transparência

RELATORIA DO PROJETO DE POLÍTICAS AFIRMATIVAS NA UFBA

Detalhes
Publicado: 30 Abril 2026

Desde o início, estabeleci com o professor Naomar Monteiro de Almeida-Filho uma relação de muito respeito. Ele sempre demonstrou confiança em meu trabalho, e tê-lo como referência na minha própria constituição como reitor foi, para mim, uma experiência de exigência e desafio positivamente constante.

A disposição do professor Naomar Almeida em pensar e executar projetos nos remete àquelas pessoas de uma outra época, referenciadas por Engels (1979) em A Dialética da Natureza:

"Os heróis dessa época não se achavam ainda escravizados à divisão do trabalho, cuja ação limitativa, tendente à unilateralidade, se verifica frequentemente entre seus sucessores. Mas o que constituía sua principal característica era que quase todos participavam ativamente das lutas práticas de seu tempo, tomavam partido e lutavam, este por meio da palavra e da pena, aquele com a espada, muitos com ambas. Daí essa plenitude e força de caráter que fazia deles homens completos. Os sábios de gabinete são a exceção: ou eram pessoas de segunda ou terceira classe, ou prudentes filisteus que temiam queimar os dedos."

Foi com grande surpresa que recebi uma ligação do nosso Reitor convidando-me para presidir a Comissão de Relatoria do Projeto de Políticas Afirmativas da UFBA.

À primeira vista, o convite me pareceu equivocado. Diante da força das ciências sociais e humanas na UFBA, ter um engenheiro agrônomo, com mestrado e doutorado em Solos, à frente de uma relatoria daquela natureza não me parecia a solução mais recomendável. Apesar do meu interesse por temas diversos, enfrentar aquele debate em interlocução com especialistas, militantes e setores fortemente posicionados da universidade - e em parcela relevante contrários às políticas afirmativas - não me parecia uma boa ideia. Pedi ao reitor uma conversa sobre o assunto. Marcamos para o final de uma reunião do Conselho Universitário.

Foi durante a própria reunião, enquanto eu ainda organizava mentalmente os argumentos com que pretendia recusar o convite, que - no ano da graça de 2004, numa sessão do Egrégio Conselho Universitário da Universidade Federal da Bahia, em uma cidade como Salvador, a Roma Negra, com cerca de 84% de pretos e pardos - percebi que éramos apenas dois negros presentes naquela reunião entre conselheiros: o professor Caiuby Alves da Costa (Diretor da Escola Politécnica) e eu. Naquele instante, fui tomado por uma sensação muito concreta de responsabilidade.

Aquela percepção me atravessou de forma definitiva. Não era apenas um dado estatístico. Salvador estava ali, naquele espaço de poder universitário, quase inteiramente ausente de si mesma. Naquele momento, compreendi que recusar o convite seria também recuar diante de um problema que já não podia mais ser adiado. Aceitei.

Uma vez mais me encontrava com as bifurcações do tempo, e o meu edifício dos saberes, composto por fragmentos de especializações, ganharia mais um tijolo. Evidentemente, construindo esse edifício em conflito interno permanente, nunca tive condições de assumir, como Haroldo de Campos (Campos, 1992) o fez, de forma tão competente e bem resolvida:

"Considero-me um especialista em fragmentos. Em matéria de passado de cultura estou sempre atento — falando de poesia — àquelas obras que respondam, de maneira viva, a uma pergunta extraída de uma circunstância produtiva do presente."

Comecei, então, a estudar o tema de forma mais sistemática. Logo percebi algo que se repetiria muitas vezes: o racismo parecia sempre um problema evidente nos outros, mas subitamente se tornava cheio de camadas quando a universidade precisava olhar para si mesma.

Esse foi um dos primeiros grandes temas debatidos de forma mais aberta e intensa na lista de e-mails da UFBA. Todos queriam opinar. Havia posições favoráveis, dúvidas sinceras, reações defensivas, ironias e agressividades veladas. O que anos depois as redes sociais radicalizariam ao extremo já se anunciava ali, em escala universitária.

As frases se repetiam com impressionante previsibilidade:

—    "A Bahia é um lugar de mulatos!"

—    "Raça não existe!"

—    "Faça o que você quiser, eu não sou racista!"

—    "E o mérito? Como fica?"

—    "Professor Paulo Gabriel: régua é régua!"

—    "O computador que determina os aprovados da UFBA olha a cor da pele dos candidatos?"

—    "O nível da universidade vai cair!"

—    "Você precisou de cotas para estar aqui?"

Era um repertório revelador. Ali estavam, ao mesmo tempo, a negação do racismo, a defesa abstrata do mérito, a recusa em reconhecer privilégios e o medo de perda de posição. O mais impressionante é que quase ninguém se percebia como defensor de um sistema de exclusão. Ao contrário: muitos se imaginavam guardiões da justiça, da excelência e da racionalidade - como se a universidade brasileira tivesse chegado ao século XXI por mecanismos puros, neutros e socialmente inocentes. Felizmente, muitos intelectuais participaram do debate com argumentos inequívocos em defesa das políticas afirmativas na UFBA.

O professor Pedro Prata, em intervenção nesse debate pela lista de e-mails dos docentes, citou estudos do Geneticista Sérgio PENA da UFMG sobre a matriz genética da população brasileira. As pesquisas demonstram que, na população feminina — nesse caso, por meio do DNA mitocondrial —, a matriz genética das mulheres com fenótipo branco se compõe, em média no Brasil, de 28% de haplogrupos africanos, 39% de haplogrupos europeus e 33% de haplogrupos ameríndios. No Nordeste, esse retrato molecular se apresenta com 44% de haplogrupos africanos, 34% de haplogrupos europeus e 22% de haplogrupos ameríndios. Essas informações foram apresentadas pelos geneticistas Sérgio Danilo Junho Pena e Maria Catira Bortolini  (PENA; BORTOLINI, 2004) em artigo publicado na Revista de Estudos Avançados da USP , no qual afirmam que determinadas técnicas de pesquisa genética demonstram que cerca de 146 milhões de brasileiros — à época, 86% da população — apresentavam mais de 10% de contribuição africana em seu genoma.

O professor João Reis, também participando da lista de discussão, afirmou que pesquisas como essas precisam ser mais divulgadas como parte do combate ao racismo no Brasil, e acrescentou:

"O Brasil é um país miscigenado. Aliás, os Estados Unidos também, e diversos países da América Latina, idem."

Prosseguindo, o professor ressaltou que:

"esse aspecto biológico não se traduz imediatamente na mentalidade das pessoas, em nenhum lugar. Uma coisa é a biologia; outra é a sociologia ou a antropologia do fenômeno 'racial'. No Brasil, a cor da pele e outros traços físicos são pretextos para discriminar negativamente. Isso significa que ter a pele clara é possuir um capital simbólico que favorece grandemente o processo de ascensão social."

Com a ajuda de Márcia Vinhas (1964–2025) e Martim Silva, primos queridos que possuíam uma extraordinária biblioteca de ciências sociais e humanas, mergulhei de forma intensa na bibliografia do tema. Li, comparei, tomei notas, discuti argumentos e procurei compreender melhor uma questão que, até então, eu conhecia mais por sensibilidade política do que por estudo sistemático.

Passei também a conversar com acadêmicos, militantes e colegas de diferentes áreas. Quanto mais estudava, mais percebia que o problema não era apenas o subingresso de negros e pobres na universidade pública. O problema era mais profundo: tratava-se de uma instituição organizada historicamente para não se enxergar como parte ativa da reprodução da desigualdade brasileira.

Tive, nesse processo, o apoio importante dos demais membros da comissão: o professor Marcos Antônio Fernandes, diretor do Instituto de Matemática, e o professor Osvaldo Barreto, diretor da Escola de Administração.

Foi assim que redigimos a proposta de relatório que embasaria a deliberação da universidade. Mais do que elaborar um documento institucional, eu sentia que estava participando de um daqueles momentos em que a universidade é obrigada a decidir se continuará sendo apenas guardiã dos seus próprios privilégios ou se aceitará, finalmente, confrontar aspectos injustos da estrutura histórica que a constitui.

Algum tempo depois, vivi uma cena que nunca esqueci. Estava em um jantar na casa de um amigo, em Itabuna, quando um dos convidados sentou-se ao meu lado e me disse, com absoluta naturalidade:

- Sabia que você me dá um prejuízo de sete mil reais por mês?

Sorri, sem entender.

- Eu?

Ele insistiu:

- Não dê risada, não. Você é Paulo Gabriel?

Respondi que sim.

- Pois é. Meus dois filhos passaram no vestibular da UFBA, mas não entraram por causa da sua "cota". Por isso sou obrigado a desembolsar sete mil reais por mês para eles estudarem numa faculdade particular.

(Percebe-se pelo discurso que os filhos dele não chegaram a ser aprovados no vestibular da UFBA.)

A conversa foi cordial. Tratava-se de uma pessoa educada, contrária às cotas, mas capaz de sustentar o desacordo sem gritar ou transformar a divergência em guerra moral imediata. Conversamos longamente, embora sem conseguir mudar a opinião um do outro.

Mas aquela cena me marcou muito. Porque ela revelava, de forma quase didática, algo central naquele debate: a política afirmativa, ao contrário do que muitos queriam fazer parecer, não era uma disputa abstrata sobre princípios. Ela tocava interesses concretos, afetava expectativas familiares, deslocava trajetórias imaginadas e obrigava setores historicamente protegidos a lidar, pela primeira vez, com a experiência da concorrência real.

Talvez esse tenha sido um dos aspectos mais difíceis de admitir para parte da elite universitária e social brasileira: as cotas não introduziam uma injustiça inédita. Elas apenas interrompiam, ainda que parcialmente, a naturalidade com que certas vantagens sempre circularam como se fossem apenas fruto de esforço individual.

No processo de construção do relatório, destacou-se, para mim, a força do Movimento Negro. Evidenciou-se a capacidade de negros e negras - militantes e não militantes -, em articulação com não negros, de enfrentarem, ao longo de séculos, o racismo e as múltiplas formas de desumanização e, simultaneamente, construírem um consistente repertório argumentativo que, por fim, nos colocava diante dessas conquistas. Ademais, observa-se a capacidade desses segmentos de mobilizar forças significativas e, por meio de seus intelectuais, instituir novos campos de ensino, pesquisa e extensão na universidade, ancorados em critérios acadêmicos derivados de categorizações teóricas, conceituais e metodológicas, posteriormente traduzidas em currículo.

Mais tarde, Nilma Lino Gomes (2017) sintetizaria essa construção no título de seu livro, Movimento Negro Educador. No processo de discussão das políticas afirmativas da Universidade Federal da Bahia, pude constatar como o movimento negro foi capaz de produzir conhecimento não apenas para formar novos militantes, mas também para educar a sociedade em geral, avançando em direção à utopia de uma sociedade pós-racista.

Nesse processo, um debate sempre delicado é a questão do mérito. Para mim, sempre foi evidente que o mérito, quando dissociado das condições concretas de sua produção, funciona menos como critério de justiça e mais como linguagem legitimadora da herança social.

Essa questão é formulada de modo particularmente preciso por Michael J. Sandel (2020) em A Tirania do Mérito: O que aconteceu com o bem comum?. O autor argumenta que a meritocracia — compreendida como a crença de que as posições sociais decorrem exclusivamente do esforço e do talento individuais — não apenas fracassa em promover justiça distributiva, como também produz efeitos morais e políticos corrosivos. Ao creditar o sucesso aos “méritos próprios”, alimenta a arrogância entre os vencedores; ao atribuir o fracasso à suposta insuficiência individual, impõe aos demais experiências de humilhação e desvalorização social. Esse duplo mecanismo não só legitima as desigualdades existentes, como também intensifica ressentimentos que se projetam, inclusive, no campo político.

Não me parece exagero afirmar que é sobre essa crença meritocrática que se assentam as bases da sociedade brasileira — e, particularmente, da universidade. Superá-la constitui um desafio central para a construção de um projeto de país mais justo.

Há um aspecto discutido por Sandel (2020) que não pode ser negligenciado, sob pena de recuarmos nas lutas emancipatórias: A igualdade de oportunidade é uma correção moralmente necessária da injustiça. No entanto, não um ideal adequado para uma boa sociedade. Como princípio reparador é um primeiro e decisivo passo, mas devemos ter um projeto civilizatório para muito além delas. As políticas afirmativas, nesse sentido, cumprem um papel fundamental, quebrar barreiras é necessário: ninguém deve ser impedido de desenvolver sua potência humana pela pobreza ou pelo preconceito. Mas uma sociedade boa não pode ser fundamentada somente na promessa de liberdade. É preciso construir condições em que todos possam viver com decência e dignidade, desenvolvendo e exercitando suas habilidades em atividades socialmente valorizadas, compartilhando uma cultura amplamente difundida do aprendizado e deliberando, com seus concidadãos, sobre as questões públicas.

Nesse aspecto, há algo na canção País Tropical, de Jorge Ben Jor, que ressoa com esse ideal: a intuição de que a dignidade não depende de títulos formais, mas do reconhecimento construído na vida cotidiana e nas relações concretas com a comunidade.

“Posso não ser um band-leader/  Mas assim mesmo lá em casa todos os meus amigos/ Meus camaradinhas me respeitam, pois é/ Essa é a razão da simpatia/ Do poder do algo mais e da alegria”

Trata-se de uma imagem simples, mas longe de trivial, para pensar o que significa uma sociedade em que todos se reconhecem como iguais em valor.

Participar desse processo foi decisivo para os desafios que viriam em seguida. A experiência acumulada ali me ofereceu repertório político, densidade intelectual e segurança institucional para decisões futuras. Mais do que isso: ela alterou de forma duradoura a minha maneira de compreender o que uma universidade pública brasileira precisa enfrentar se quiser, de fato, merecer esse nome.

Quando a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia foi criada, já sabíamos que não faria sentido inaugurar uma nova universidade pública sem enfrentar, desde o início, a questão da desigualdade racial e social no acesso e na permanência. A UFRB aplicou reserva de vagas já em seu primeiro vestibular. E foi também com base nessa trajetória que tivemos convicção suficiente para propor e criar a primeira Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas do Brasil. Isso não surgiu do nada. Nada disso foi simples gesto de modernização administrativa ou adesão retórica a uma pauta do momento. Era consequência de um aprendizado institucional, político e ancestral que já não permitia inocência.

O que começou, para mim, como um convite inesperado e quase recusado acabou se convertendo em uma das experiências formativas mais importantes da minha vida universitária.

 

CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem & outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. (Coleção Debates).

ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza. Tradução de Paulo Pires. Lisboa: Editorial Presença, 1979.

GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos na luta por emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

PENA, Sérgio D.J; BORTOLINI, Maria Catira. Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas? Estudos Avançados São Paulo, v.18, n. 50, Jan./Apr. 2004 versão impressa INSS 0103-4014.

SANDEL, Michael J. A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum?. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

 

UFRB: UM SOPRO DE VIDA

Detalhes
Publicado: 02 Abril 2026

Paulo Gabriel Nacif

 

Poder acompanhar, desde o início e de um lugar privilegiado, o processo de ativação social, cultural, econômica e educacional desencadeado pela UFRB no Recôncavo foi uma das experiências mais desafiadoras — e também mais reveladoras — da minha vida intelectual e política.

Tive a oportunidade de observar o que acontece quando uma universidade pública deixa de ser apenas uma abstração institucional e passa a agir concretamente sobre um território.

O Recôncavo, nesse sentido, era um lugar especialmente fértil para essa observação.

Trata-se de uma região historicamente reconhecível, de forte densidade cultural, longa memória territorial e uma rede de municípios pequenos e médios suficientemente articulados para que os efeitos de uma instituição como a UFRB se tornassem visíveis em pouco tempo. Aqui, a universidade não se dissolveria numa massa urbana indistinta. Sua presença era perceptível, cotidiana, mensurável. E, pouco a pouco, tornou-se também transformadora.

Não me refiro apenas aos impactos mais imediatos, embora eles sejam reais e expressivos. Refiro-me a algo mais profundo: à maneira como a universidade começou a alterar disposições sociais, expectativas coletivas, fluxos econômicos, repertórios culturais e horizontes de futuro.

A chegada da UFRB introduziu no Recôncavo novas possibilidades. Passou a ser mais plausível, para milhares de famílias, imaginar trajetórias de formação superior que antes pareciam improváveis — ou simplesmente inalcançáveis. O compromisso social com a escolarização ganhou densidade. Consolidou-se a percepção de que o acesso ao conhecimento qualificado poderia deixar de ser um privilégio distante para integrar o horizonte ordinário da vida. Esse deslocamento, embora silencioso, é profundo.

Universidades não transformam apenas por aquilo que ensinam formalmente. Transformam também por aquilo que fazem uma sociedade passar a considerar possível. Com o tempo, tornou-se visível o surgimento de processos de reorganização territorial em torno da universidade.

Na esfera econômica a presença da UFRB passou a introduzir uma nova dinâmica de circulação de recursos. A remuneração de docentes e técnicos, os investimentos em obras e equipamentos, os contratos de custeio, os gastos estudantis, os projetos de pesquisa e extensão — tudo isso passou a compor um fluxo econômico relativamente estável e com forte capacidade de capilarização. 

Em cidades de menor porte, esse tipo de presença não é lateral. Ela altera o mercado imobiliário, pressiona os sistemas de transporte, reconfigura a oferta de serviços, amplia o consumo cultural, cria novas demandas urbanas e ativa setores antes adormecidos ou pouco sofisticados.

Habitação, alimentação, deslocamento, lazer, conectividade, comércio, hospedagem, prestação de serviços: em maior ou menor grau, tudo isso passou a se reorganizar em função da universidade.

O que mais me impressionou ao longo dos anos foi perceber como a universidade começava a fortalecer redes socioculturais, ampliar repertórios de participação e produzir novas formas de confiança compartilhada entre pessoas, grupos e instituições.

A presença da UFRB ajudou a criar, no Recôncavo, um ambiente mais propício à circulação de ideias, ao reconhecimento de competências, à valorização de trajetórias antes invisibilizadas e à construção de vínculos mais densos entre diferentes mundos sociais. 

Uma universidade pública muda um território também porque altera quem pode falar, quem pode circular, quem pode ocupar posições de visibilidade e quem passa a ser reconhecido como sujeito legítimo de conhecimento e intervenção.

No caso da UFRB, isso se tornou especialmente perceptível no fortalecimento de grupos historicamente subalternizados, de comunidades tradicionais e de setores sociais que, por muito tempo, permaneceram à margem dos processos formais de produção e validação do saber.

A universidade não modifica diretamente as estruturas de desigualdade das sociedades. Mas pode produzir deslocamentos importantes.

Vi, ao longo dos anos, nossos egressos começarem a ocupar espaços de destaque na gestão pública, saúde, cultura, educação, organização comunitária, produção esportiva e em iniciativas locais de inovação social, empreendedorismo e tecnologia. 

Em regiões historicamente atravessadas por hierarquias rígidas e por formas persistentes de exclusão, a circulação de novos sujeitos em posições de fala e decisão produz efeitos simbólicos e materiais profundos.

A universidade ajudou a fortalecer práticas de cidadania, amadureceu ambientes de debate público e ampliou o grau de participação qualificada em diferentes esferas da vida regional.

Com ela, eventos culturais passaram a surgir com maior frequência, grupos locais ganharam novas possibilidades de articulação, debates antes restritos a nichos específicos passaram a circular mais amplamente, e a própria noção de patrimônio — material e imaterial — passou a ser mobilizada de forma mais intensa e mais crítica.

Apesar de todos esses avanços, também pude perceber que as manifestações explícitas da vontade da universidade de atuar de forma mais orgânica em favor do desenvolvimento regional permaneceram, muitas vezes, mais no plano do discurso do que no das práticas efetivas. Esse é um problema real. E ele não decorre apenas de falta de vontade. Há razões estruturais para isso.

Por um lado, a própria universidade pública brasileira é uma instituição internamente fragmentada, marcada por forte especialização disciplinar, baixa cultura de convergência estratégica e um regime de trabalho em que a autonomia docente — indispensável e inegociável — quando não bem articulada, muitas vezes dificulta a construção de agendas institucionais de médio e longo prazo.

Por outro lado, os entes estatais que cercam a universidade — municípios, estados e, e menor grau, e a própria União — frequentemente não a enxergam como parceira de planejamento territorial ou formulação estratégica. Em geral, preferem vê-la sob a lógica mais estreita da prestação de serviços (laudos, consultorias, cursos, assessoria técnica, presença legitimadora em algum evento ou conselho).  Isso empobrece enormemente a relação.

A universidade, assim, é convocada a responder pontualmente a demandas dispersas, mas raramente é incorporada a projetos mais amplos de transformação regional.

A ausência de uma convergência mínima entre universidade, poder público e sociedade organizada leva a um subaproveitamento importante das potencialidades abertas pela implantação de uma universidade federal em um território como o Recôncavo. Criamos instituições potentes, mas raramente conseguimos organizá-las dentro de projetos históricos consistentes.

Ainda estamos longe de compreender, com rigor, a relação entre expansão da escolaridade e transformação efetiva da estrutura produtiva e social do país. Nas últimas décadas, o Brasil avançou significativamente em termos de acesso à educação. Mas esse avanço não foi acompanhado, na mesma proporção, por aumentos consistentes de produtividade, sofisticação econômica e reorganização estratégica do trabalho.

Em comparação com países como Chile e Coreia do Sul, por exemplo, ainda apresentamos uma dificuldade notável de converter mais anos de escolarização em ganhos robustos de eficiência sistêmica, inovação social e dinamismo produtivo.

Isso exige reflexão. Porque a mera ampliação do acesso à educação, embora civilizatória e indispensável, não se traduz automaticamente em desenvolvimento. Para que isso ocorra, é preciso que a educação esteja inserida em projetos mais amplos de reorganização nacional, regional e territorial. E é exatamente aí que tantas vezes fracassamos.

A experiência da Reitoria me proporcionou uma oportunidade rara de responsabilidade, debate, construção institucional e convivência com praticamente todos os campos do saber. A posição de liderança — especialmente numa instituição nascente — é, muitas vezes, profundamente solitária. Mas também é um lugar de aprendizagem intensiva.

Nunca tive dúvidas de que, do ponto de vista pessoal, aquele período me colocava numa condição privilegiada pois ao mesmo tempo em que participava da construção de uma nova universidade, eu também era permanentemente reconstruído por ela. 

Ao longo daqueles anos, acompanhei a chegada ao Recôncavo de mais de mil e setecentos professores e técnico-administrativos, pessoas que decidiram deslocar suas vidas para partilhar o sonho de construir uma universidade nova em uma região historicamente tão rica quanto negligenciada.

Vieram para o Recôncavo pesquisadores, técnicos, gestores, intelectuais e profissionais de altíssimo nível, muitos deles movidos não apenas por oportunidade funcional, mas por um desejo genuíno de participar de algo inaugural.

Conheci, nesse processo, profissionais realmente notáveis. Pessoas cuja presença renova, até hoje, minha confiança no futuro.

Para muitos, a possibilidade de construir uma instituição nova, liderar grupos de pesquisa e extensão, viver no interior, experimentar outras temporalidades urbanas e buscar uma qualidade de vida diferente funcionou como força de atração poderosa.

Acredito que, para a maioria, o encontro com o Recôncavo acabou oferecendo muito do que se buscava — ainda que, muitas vezes, também tenha exigido mais do que se imaginava.

Durante o período em que exerci o reitorado da UFRB, busquei participar, sempre que possível, da agenda nacional dos reitores das universidades federais, especialmente por meio da ANDIFES.

Integrei diferentes comissões e grupos de trabalho, mas uma das experiências que mais me marcaram foi a representação dos reitores brasileiros no processo de criação do Espaço de Encontro Latino-Americano e Caribenho de Educação Superior (ENLACES), uma plataforma voltada à articulação solidária da educação superior na América Latina e no Caribe.

Essa experiência me permitiu visitar boa parte dos países latino-americanos e caribenhos e conhecer, com relativo detalhe, suas estruturas universitárias, seus desafios e suas perspectivas. Foi uma aprendizagem extraordinária. Mas busquei, ao mesmo tempo, aproximar a UFRB de outro horizonte que sempre me pareceu estratégico: Portugal, África e o mundo da lusofonia.

Nos debates que antecederam a criação da universidade, eu sempre insistia no imenso potencial que o Recôncavo possuía para atrair para si essa agenda. Não se tratava de retórica diplomática. Tratava-se de uma percepção histórica e territorial muito concreta. Poucos lugares no Brasil possuem a densidade simbólica, a profundidade afro-atlântica e a legitimidade cultural do Recôncavo para sustentar uma relação orgânica e criativa com a África e com o universo lusófono.

Quando esteve em Cruz das Almas, em 2006, para o lançamento das primeiras obras da UFRB, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos encheu de esperança ao afirmar: “A Universidade do Recôncavo tem o dever de se aproximar da África.”

Alguns anos depois, em 25 de maio de 2009, no Dia da África, ao inaugurar a sede da UFRB em Cachoeira, Lula voltou ao tema — desta vez acompanhado do presidente do Senegal, Abdoulaye Wade. Aquilo nos animava. Parecia indicar que o Estado brasileiro percebia, ainda que parcialmente, o papel singular que a UFRB poderia desempenhar nesse campo. Nesse período, visitei alguns países e territórios associados à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e estabelecemos relações muito positivas com suas lideranças.

Recordo-me com especial nitidez de uma reunião em que o então secretário executivo da CPLP, o diplomata cabo-verdiano Luís de Matos Monteiro da Fonseca, nos disse ser especialmente estimulante ver uma universidade brasileira tão jovem, situada em um território tão emblemático quanto o Recôncavo, lançar-se com tanta intensidade na busca de uma associação orgânica com o universo lusófono.

Houve, de nossa parte, um esforço real para atrair apoio governamental que aprofundasse essa direção. Mas esse movimento acabou sendo deslocado com a criação da UNILAB, em 2010. Entendo perfeitamente as razões que levaram à criação de uma instituição específica para essa agenda. Inclusive, atuei para que um campus da UNILAB fosse instalado em São Francisco do Conde, no próprio Recôncavo.  Ainda assim, preciso admitir: a decisão do Ministério da Educação de não apostar estrategicamente na UFRB para desempenhar um papel mais estruturante na relação com a África permanece como uma das grandes frustrações do meu reitorado. Não por vaidade institucional. Mas porque continuo convencido de que o Recôncavo reunia — e ainda reúne — condições singulares para isso.

Como primeiro Reitor de uma universidade federal presente no interior da Bahia, a todo tempo era convidado a participar de atividades educativas, científicas e culturais no Estado. Considerava um dever histórico contribuir para transformar em algo habitual a presença da universidade federal, por meio do seu Reitor, na vida cultural do interior da Bahia. Nesse processo, apoiei, de maneira ativa, diversas iniciativas de campanhas de implantação de universidades federais e institutos federais em toda a Bahia, destacando-se aí as ações em prol da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - UNILAB, Universidade Federal do Sul da Bahia - UFSB, Universidade Federal do Oeste da Bahia - UFOB, os campi baianos da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF e campi de Institutos Federais. Outras campanhas, ainda sem sucesso, foram empreendidas em outras regiões e sempre que possível busquei estar presente. Cito aí as mobilizações na Chapada Diamantina e no nordeste da Bahia.

Quando da criação da UNILAB o senador Antônio Carlos Magalhães Junior corretamente destacou que era indispensável um campus da universidade em Salvador. Eu estava no momento em reunião com interlocutores baianos quando estes foram avisados de que o Presidente Lula tinha definido implantar esse campus baiano em Salvador. Não tive dúvidas em me atrever a dizer que considerava essa decisão um equívoco. O campus deveria ser implantado no Recôncavo. Fui alvo de piada: “Paulo, o Recôncavo é muito longe!” 

Logo ao sair da agenda liguei para o professor Marivaldo Amaral, então docente da UFRB e secretario da Prefeitura de São Francisco do Conde e disse para ele que era necessário conversar com a Prefeita Rilza Valentim para ela articular o campus para as terras franciscanas. Na minha rápida avaliação naquele momento Rilza era a única capaz de enfrentar essa disputa representando o nosso interior e particularmente o Recôncavo.

Ainda hoje me impressiona a agilidade da nossa Rilza. No dia seguinte ela me ligou e disse que tinha um jantar naquela noite em Brasília com o Reitor da UNILAB Paulo Speller. Detalhe: Ela me ligou 16:00 e ainda estava em Salvador. Após o jantar ela voltaria naquela mesma noite para a Bahia.

Após convencer o Reitor, Rilza começou o processo, duro, de convencimento das lideranças da Bahia. Certa feita, disposta a falar diretamente com o Ministro Fernando Haddad ela descobriu o hotel em que o Ministro se hospedaria no Ceará e ficou no mesmo hotel, deixando um assessor de prontidão para avisa-la da chegada do ministro no salão do café da manhã. Sentou com o Ministro e mostrou a viabilidade do campus em São Francisco do Conde e deu todas as garantias necessárias.

A cada passo ela me ligava exultante. Ela não descansou até conquistar o campus. Tenho muito orgulho de ter elaborado o documento que ela apresentou ao Governo Federal mostrando o interesse de São Francisco do Conde pelo campus da UNILAB. 

O campus da UNILAB em São Francisco do Conde foi inaugurado em 12 de maio de 2014, com a presença do então ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Eu estava ali, misturado entre dezenas de autoridades e solitariamente muito feliz e completo por saber o meu papel naquela conquista. Hoje quando acompanho os avanços do campus dos Malês sob a liderança da Professora Mirian Sumica Reis e a concretização da conquista da Universidade Federal África-Brasil bem sei que essas ações valem a pena.

Tive um papel importante na definição do campus sede da Universidade Federal do Sul da Bahia. Um dia, ao chegar no MEC um assessor do Ministro me mostrou a lista de novas universidades que seriam anunciadas no dia seguinte pela Presidenta Dilma e lá estava a UFSB, com três campi (Porto Seguro, Itabuna e Teixeira de Freitas) e a sede em Porto Seguro. Não obstante todo significado de Porto Seguro como a sede daquela universidade maantenho desde sempre uma relação muito estreita com Itabuna e bem sei do papel precursor dessa cidade em relação à organização das forças emancipatórias da Bahia, por isso considerei que era necessário, ao menos tentar articular a mudança da sede para a cidade grapiúna.

Liguei para o ex-Prefeito Geraldo Simões e disse para ele o que soube. Ele entendeu que aquilo era inaceitável e, após falar com o Ex-presidente lula, convencendo-o a intervir para mudar a sede da Universidade para as terras grapiúnas. No dia seguinte o anuncio foi feito com desejávamos. Estava lá em Itabuna na inauguração da nova Universidade e era muito gratificante saber o papel que tive para aquele momento.

O campus de Feira de Santana da UFRB também foi fruto de ação nos bastidores. Meu querido amigo e Secretário Executivo do MEC, Luiz Claudio, me informa que a UFRB ganharia o campus de Santo Amaro e a UFBA receberia o campus de Camaçari e Feira de Santana.  Eu disse para ele que aquilo era inaceitável, Feira de Santana e Camaçari deveriam ser da UFRB e usei todos os argumentos possíveis, abalando as convicções do Secretário. A seguir liguei para o Deputado Zé Neto e falei sobre a maior organicidade dos projetos de Feira de Santana com o Recôncavo e ele concordou e interviu. Assim, conseguimos o campus de Feira de Santana. A UFBA não abriu mão de Camaçari – mas eu tentei, tentei muito.

É isso. Sempre brinco que se temos a sorte de estar nos lugares especiais com Forest Gump (personagem do filme estadunidense de 1994), não podemos prescindir de incorporar o Exú Tranca Rua para abrir caminhos para que as nossas ideias passem. Neste último caso vale até mesmo embaralhar as ideias do mundo para que ele perca a sua linearidade óbvia. 

 

 

 

 

 

 

 

CRUZOS DE SABERES NAS ENCRUZILHADAS DO RECÔNCAVO

Detalhes
Publicado: 29 Março 2026

 

Em todas as culturas, a encruzilhada permanece como um espaço de transição, escolha e poder — um território simbólico onde diferentes realidades se encontram e onde o destino pode ser alterado. Poucos lugares, no Brasil, expressam tão bem essa condição quanto o Recôncavo da Bahia. O Recôncavo é uma formação histórica, cultural e civilizatória marcada por encontros, conflitos, permanências, insurgências e reinvenções. E foi justamente nessa condição de encruzilhada que a experiência da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia se constituiu.

Desde o início, a UFRB precisava nascer como uma universidade capaz de disputar o próprio sentido da ideia de universidade no Brasil. Não bastava interiorizar vagas, multiplicar cursos ou desconcentrar equipamentos públicos. Era necessário construir uma instituição intelectualmente ousada, socialmente enraizada e civilizatoriamente consciente do território em que se inscrevia.

Lembro-me de uma audiência pública da campanha pela UFRB, realizada em Nazaré das Farinhas, em 2003. Um jovem professor, ligado ao Movimento Negro Unificado, disse algo leve e profundamente sério: “Com a UFRB, o Recôncavo será Wakanda!”

A metáfora me pareceu luminosa. Wakanda, o país africano fictício do universo Marvel, imaginado como uma civilização capaz de preservar sua identidade histórica e cultural ao mesmo tempo em que desenvolve altíssima sofisticação científica e tecnológica. Uma sociedade que soube escolher, com autonomia, o que incorporar do mundo e o que preservar de si mesma. Uma sociedade que, sem abrir mão da ancestralidade, foi capaz de produzir ciência de fronteira, invenção, soberania e futuro.

É isso que desejamos para o Recôncavo e para a universidade que ousa levar o seu nome: uma instituição capaz de apontar para um projeto de desenvolvimento que articule, de forma criativa e soberana, ciência radicalmente avançada e profundo respeito às ancestralidades que constituem o território. Não uma universidade que apenas acolha a diversidade como apêndice moral. Tampouco uma universidade colonizada, fascinada por modelos externos e incapaz de reconhecer a densidade epistêmica do chão onde pisa. O desafio é construir uma universidade capaz de fazer ciência de ponta sem romper com a memória longa do povo, uma universidade capaz de produzir futuro sem esquecer de suas raízes.

Esse foi o nosso delírio de realidade.

No fundo, essa talvez seja uma das questões centrais para qualquer reflexão consequente sobre o Brasil: como incorporar dimensões universais do conhecimento e da técnica sem abdicar das forças afirmativas do nosso modo de ser? Como produzir desenvolvimento material sem perder a espessura simbólica, histórica e espiritual que nos constitui? Como evitar tanto a recusa ressentida da modernidade quanto a submissão acrítica a modelos exógenos?

A busca por essa espécie de síntese Wakanda não é nova entre nós. Ela atravessa, de diferentes formas, a história intelectual brasileira. Talvez tenha encontrado em Oswald de Andrade a sua formulação mais potente, por meio da antropofagia cultural: a ideia de devorar o mundo para recriá-lo a partir de nós mesmos. Não se trata de cópia, nem de isolamento. Trata-se de incorporação crítica, seleção ativa, reelaboração criadora.

Essa questão reaparece de maneira interessante em um diálogo ocorrido no Roda Viva (TV Cultura), em 1996, quando Eduardo Giannetti da Fonseca perguntou a Caetano Veloso se não haveria um desencontro insuperável entre o nosso coração Yorubá, a nossa alegria de viver, a nossa espontaneidade e a aspiração aos valores básicos da vida civilizada moderna, como o respeito às leis e a realização dos valores republicanos. A resposta de Caetano foi extraordinária: mais do que combinar essas dimensões, o Brasil talvez tivesse a possibilidade de tomar posse da civilização e de incorporá-la sem sucumbir à frieza e à rigidez da vida moderna.

É precisamente esse o ponto. A questão não é escolher entre tradição e modernidade, entre ciência e cultura, entre tecnologia e ancestralidade. A questão é produzir uma síntese superior, intelectualmente exigente e historicamente enraizada. E é aqui que uma universidade como a UFRB ganha relevância estratégica.

A UFRB para estar à altura do Recôncavo, não pode ser tímida na construção da ciência. Não pode se contentar com a mera reprodução de currículos convencionais ou com a repetição subordinada de agendas científicas definidas em outros centros. Precisava ser radical na construção do conhecimento. Radical no sentido mais forte do termo: ir à raiz dos problemas, interrogar os fundamentos, deslocar os centros de legitimação, formular perguntas novas, abrir trilhas inéditas, produzir ciência rigorosa, original e internacionalmente dialogável a partir de um território historicamente subalternizado.

Mas essa radicalidade científica só fará sentido se vier acompanhada de uma radicalidade equivalente no respeito à ancestralidade. Não se trata de um gesto de deferência simbólica. Trata-se de reconhecer que os povos, práticas, cosmologias, linguagens, técnicas e pedagogias que constituem o Recôncavo são também fontes de inteligência histórica, formas de elaboração do mundo, modos densos de conhecimento, tecnologias sociais de longa duração, arquivos vivos de experiência civilizatória. Precisamos aprender a nos reorganizar a partir deles, sem abdicar da exigência científica, mas também sem impor a arrogância epistemológica de quem acredita que só há conhecimento legítimo sob a forma disciplinar moderna.

Foi exatamente esse o horizonte que, em alguma medida, buscamos construir na UFRB. Desde o início, a universidade se apresentou como lugar de encontro entre movimentos, demandas sociais, sujeitos históricos e formas diversas de produção do saber. Aqui se encontraram os movimentos do campo e da reforma agrária, a educação do campo, o movimento negro, as comunidades quilombolas, indígenas, as lutas por inclusão e educação especial, os projetos de formação de professores, as demandas da saúde pública, engenharia, cultura  e sustentabilidade.

Esses encontros não foram laterais nem decorativos. Eles moldaram a identidade da instituição. A universidade não se limitou a recebê-los; foi se constituindo por eles. E isso é decisivo. Porque uma universidade verdadeiramente viva não é apenas aquela que produz conhecimento sobre a sociedade, mas também aquela que se deixa interpelar por ela, que se reorganiza a partir das suas urgências históricas, que aceita ser deslocada pelas vozes que chegam das margens e pelos mundos que a ciência institucionalizada, muitas vezes, não soube escutar.

Sempre nos pareceu fundamental afirmar algo que por vezes é mal compreendido: o reconhecimento dos saberes populares, territoriais e ancestrais jamais significou recusa à ciência moderna.  Sempre consideramos essencial apoiar também o desenvolvimento da ciência básica, das formações mais ortodoxas, da pesquisa laboratorial rigorosa, da excelência técnica, da produção acadêmica com capacidade de interlocução universal.

Uma universidade Wakandiana é aquela capaz de desenvolver biotecnologia, medicina, engenharia, agricultura, artes, humanidades e inovação sem precisar cortar as suas ligações com a memória profunda dos povos que a sustentam.

Isso exige mais do que políticas de acesso, embora elas sejam decisivas. Exige mais do que cotas, mais do que programas de permanência, mais do que inclusão curricular pontual. Exige um projeto institucional explícito, traduzido nas suas ações pedagógicas e administrativas, capaz de traduzir o tipo de futuro que queremos ajudar a construir.

Toda universidade responde a essa pergunta, queira ou não. Responde em seus currículos, em seus cursos, em seus silêncios, em suas prioridades de pesquisa, em sua concepção de excelência, em suas alianças institucionais e em seus critérios de reconhecimento. O que deve nos diferenciar é a consciência da resposta que ofereceremos.

A tarefa da UFRB, desde a sua origem, é precisamente essa: não apenas levar a universidade ao Recôncavo, mas permitir que o Recôncavo  transforme a ideia de universidade.

 
 

Ubiratan e Claudionor

Detalhes
Publicado: 07 Janeiro 2026

 

Claudionor Viana Teles Velloso e Ubiratan Castro de Araújo são duas figuras fundamentais para entender a história e projetar o futuro da UFRB. Dona Canô nasceu em Santo Amaro, em 16 de setembro de 1907, e permaneceu nesta terra até 25 de dezembro de 2012. Nosso "Bira Gordo" nasceu em Salvador, no dia 22 de dezembro de 1948, e, em 3 de janeiro de 2013, partiu para contar histórias no Orun.
 
 
Nesta época do ano, a saudade dos dois sempre se faz presente. Dona Canô nunca deixou o Recôncavo; ao cantar sua aldeia de forma singular, ensinou-nos valores universais. Já Bira, com sua sólida formação acadêmica universalista, colocou o conhecimento a serviço do povo, buscando explicar, traduzir e transformar o Recôncavo, a Bahia e o Brasil em lugares mais justos — onde diversidade não rimasse com injustiça ou desigualdade. Ele singularizou o universal.
 
 
Ubiratan Castro orientou a dissertação de mestrado de Maria Antonieta de Campos Tourinho, que estudou o Imperial Instituto Agrícola (do qual a UFRB descende diretamente). Trata-se de um texto incontornável para compreender nossa história. Em 2009, durante a celebração dos 150 anos de criação do Imperial Instituto, o professor Ubiratan proferiu, em Cruz das Almas, uma de suas magníficas conferências.
 
 
É admirável pensar que essas duas figuras estiveram reunidas defendendo a criação da UFRB. Em diversos momentos, caminharam juntos em nossa odisseia. Dona Canô representou a cidadania ativa e altiva, usando seu encanto para interceder pelo nosso povo junto a autoridades que sempre lhe prestaram homenagens. Bira, com sua capacidade de síntese acadêmica, muniu-nos de argumentos irrefutáveis.

Cada um a seu modo, conseguiram unir a excelência acadêmica à luta pela inclusão e pelo respeito à diversidade como partes essenciais de suas trajetórias. Deixaram, por meio de seus exemplos, esse desafio para as gerações futuras. Toda instituição precisa de símbolos fundadores, e a UFRB é pródiga nesse quesito. É motivo de muito orgulho para nossa comunidade saber que nossos alicerces se assentam em experiências humanas tão ricas. Vidas que merecem ser lembradas e celebradas!
Carl Sagan tem uma frase que certamente podemos dedicar a cada uma dessas entidades icônicas: “Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”
 
 
 

A UFRB E A ARTE DO ENCONTRO

Detalhes
Publicado: 15 Novembro 2025

Paulo Gabriel Soledade Nacif

 

No encontro com gente de todo os lugares, isso é recorrente.

Pessoas das mais diversas regiões. Pessoas das mais variadas crenças. Pessoas de diversas posições sociais. De todas as culturas.

É incrível a forma viva como elas se dirigem a mim.

Usam uma maneira muito cúmplice.

Querem espreitar a minha alma?

 Elas olham nos meus olhos.

Muitas me apertam os braços e, às vezes, até dói.

Uns demonstram uma proximidade que me deixa encabulado.

Alguns gritam, outros murmuram no meu ouvido.

Eu juro que não sei direito como improvisar a resposta na mesma vibração.

Na maioria das vezes é tudo inesperado.

Surpresa, mesmo.

Isso me deixa até pensativo, com peso na consciência por não saber retribuir.

Eis que de onde eu menos espero vem aquela pessoa próxima, quase próxima, distante ou muito distante, atravessando um assunto, parando a fila, deixando o meu uber esperar, fazendo Sofia dar risada. E então, com toda intimidade, a criatura fala, grita, sussurra:

- A nossa UFRB deu certo, hein, Professor Paulo Gabriel? Deu certo!

Essa expressão varia, mas o sentido é sempre o mesmo.

E assim vou aprendendo uma nova lição da arte do encontro.

A poesia do encontro do presente ancestral, carregado de futuro!

  1. Edital de Convocação para Assembleia Geral de Associação
  2. Recôncavo Ancestral: O Colecionador de Fins dos Tempos
  3. UFRB: UMA ESTRELA DO SUL GLOBAL
  4. Edital de Convocação para Assembleia Geral de Associação

Página 1 de 12

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5
  • 6
  • 7
  • 8
  • 9
  • 10
© Gantry Framework 2016 - 2026
Developed by RocketTheme exclusively
for Gantry 5.
Voltar ao topo