O fato de o Recôncavo ter recebido uma das maiores concentrações de africanos e seus descendentes nas Américas marcou esse território com uma intensidade comparável à da própria concavidade geológica que conforma a Baía de Todos-os-Santos. Essa singularidade histórica faz do Recôncavo um dos grandes territórios civilizatórios do Brasil.

Durante muito tempo prevaleceu um projeto intelectual e político que buscava desafricanizar o Recôncavo. O preconceito racial se espraiava em todas as dimensões . Tratava-se de reorganizar a economia, a sociedade e o próprio destino civilizatório da região a partir do pressuposto de que a presença africana representava um obstáculo ao progresso. A imigração europeia era apresentada, simultaneamente, como solução econômica, social e racial. Pretendia-se  substituir trabalhadores e deslocar o eixo civilizatório do Recôncavo, retirando a matriz africana do centro de sua organização social, econômica e simbólica.

Esse projeto encontrou expressão na literatura, na imprensa, na política e mesmo na produção científica da época.

Em As Voltas da Estrada[1], romance ambientado no Recôncavo, o escritor Francisco Xavier Ferreira Marques, baiano da Ilha de Itaparica, retrata o ideal de uma elite escravocrata que imaginava reconstruir a região por meio da substituição da população negra pela imigração europeia. Esta era concebida como o caminho para reorganizar a economia e a sociedade após a abolição da escravidão. No romance, um engenheiro descendente de senhores de engenho apresenta esse projeto nos seguintes termos:

"A salvação geral é o brasileiro selecionado do sul ou o colono estrangeiro, de boa estirpe, com hábitos de trabalho e higiene, ambição de progresso, disciplina... o colono que lavre o solo e vá lavrando do mesmo modo a raça, para que venham gerações e novo sangue."

Parte desse mesmo imaginário atravessava a produção intelectual da Imperial Escola Agrícola, precursora da UFRB. Em Pioneirismo e Hegemonia: a construção da agronomia como campo científico na Bahia (1832-1911), o pesquisador Nilton Araújo[2] demonstra a recorrência da associação entre raça, organização do trabalho e desenvolvimento agrícola nas teses produzidas pela instituição. Entre elas destaca Imigração e Colonização do Brasil, de Jacinto Antonio de Matos, na qual se lê:

"As consequências que daí resultaram para a nossa colonização foram por demais funestas. Depois do dia 13 de Maio de 1888, todos os Estados do Brasil, onde a imigração europeia não foi estabelecida, ressentiram-se do depauperamento de suas lavouras, resultado fatal, não só do abandono imediato das propriedades dos novos libertos, como também da criminosa imprevidência dos nossos legisladores, sempre preocupados com o presente, porém abandonando o futuro nas mãos de um absurdo fatalismo."

A crise da agricultura, aqui, não é herança de um sistema econômico erguido sobre séculos de trabalho escravizado, mas ausência de trabalhadores europeus. A imigração aparece, assim, como solução econômica, política e racial ao mesmo tempo — reorganizaria a produção, substituiria a mão de obra negra e contribuiria para o projeto de branqueamento da sociedade brasileira, então legitimado pelas teorias científicas predominantes. O progresso imaginado para o Recôncavo pressupunha, portanto, o deslocamento do eixo civilizatório da região.

O século XX assistiu à persistência desse imaginário. Em 1958, quando muitos de nós já existíamos, o sociólogo Luiz de Aguiar Costa Pinto - uma das referências centrais dos estudos sobre o Brasil - precisou enfrentar o debate em torno da proposta,  publicada em um jornal, de transferir para o Recôncavo um milhão de europeus. 

Em "Recôncavo: Laboratório de uma Experiência Humana", Costa Pinto[3] inicia um de seus capítulos comentando um artigo publicado em um suplemento dominical de um jornal carioca que sustentava ser necessária "a injeção maciça" de imigrantes europeus para resolver os problemas econômicos da região. Segundo esse artigo, a Bahia precisava de "um plano e um milhão de europeus".

A força desse projeto revela-se no fato de Costa Pinto ter precisado reafirmar algo que hoje parece elementar: que a capacidade de transformar o mundo não pertence a qualquer raça, mas constitui um atributo fundamental da própria condição humana. Mesmo assim, advertia o sociólogo, os esquemas ideológicos tendem a se reconstruir sempre que grupos sociais procuram preservar estruturas de poder incapazes de responder aos desafios da história.

Se aqueles projetos pretendiam deslocar o eixo civilizatório do Recôncavo, a criação da UFRB representaria, décadas depois, a afirmação do princípio exatamente inverso. Tornava-se necessário promover a reconcavização do Recôncavo: fortalecer a consciência de sua singularidade civilizatória, reconhecendo criticamente a centralidade da experiência africana na complexa trama de relações que estabeleceu com as matrizes indígenas e europeias, e projetando essa herança histórica como fundamento de novos horizontes para o Brasil.

A reconcavização do Recôncavo não constitui um fim em si mesma. É a condição para que esse território possa continuar oferecendo ao Brasil sua mais importante contribuição civilizatória — porque o que se joga aqui, em escala regional, é a mesma disputa que atravessa o país como um todo: a de saber se a diversidade que o formou será tratada como obstáculo a superar ou como matriz a partir da qual devemos construir o futuro. Nesse sentido, o Recôncavo não é uma exceção a explicar, mas um laboratório a partir do qual o Brasil pode se reconhecer.

Reconcavizar o Brasil pode significar, portanto, reconhecer que sua unidade não será construída pela homogeneização de suas diferenças, mas pela capacidade de transformá-las em uma força comum de criação histórica. Significa compreender que a pluralidade não é um problema a ser superado, mas a principal fonte da criatividade histórica da sociedade brasileira.

O Brasil precisa, antes de tudo, reconcavizar-se.

 

 

 

 


 
[1] MARQUES, XAVIER As voltas da estrada. São Paulo, GRD; Brasília, INL, 1982.
[2] ARAÚJO, Nilton de Almeida. Pioneirismo e Hegemonia: a construção da agronomia como campo científico na Bahia (1832-1911). 2010. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010.
[3] COSTA PINTO, Luiz de Aguiar. Recôncavo: laboratório de uma experiência humana. Rio de Janeiro: Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais, 1958.