A expansão da universidade federal e a criação dos institutos federais nos governos Lula e Dilma estabeleceram uma revolução silenciosa no interior do Brasil.
Entre 2006 e 2015 acompanhamos a chegada ao Recôncavo de mais de 1.700 docentes e técnico-administrativos, pessoas que decidiram deslocar suas vidas para partilhar o sonho de construir uma universidade nova em uma região historicamente tão rica quanto negligenciada. Esse processo, numa velocidade menor, continuou nos anos seguintes. Vieram para o Recôncavo pesquisadores e pesquisadoras, técnicos e técnicas, gestores e gestoras, intelectuais e profissionais de altíssimo nível, muitos deles e delas movidos não apenas por oportunidade funcional, mas por um desejo genuíno de participar de uma experiência inaugural.
Para muitas dessas pessoas, a possibilidade de construir uma instituição nova, liderar grupos de pesquisa e extensão, viver no interior, experimentar outras temporalidades urbanas e buscar uma qualidade de vida diferente funcionou como força de atração poderosa. Acredito que, para a maioria, o encontro com o Recôncavo acabou oferecendo muito do que buscavam, ainda que, muitas vezes, também tenha exigido mais do que imaginavam.
Poder acompanhar, desde o início e de um lugar privilegiado, o processo de ativação social, cultural, econômica e educacional desencadeado pela UFRB no Recôncavo foi uma das experiências mais desafiadoras da minha vida intelectual e política. Tive a oportunidade de observar, de dentro, o que acontece quando uma universidade pública passa a agir concretamente sobre um território.
O Recôncavo, nesse sentido, é um lugar especialmente fértil para essa observação. Trata-se de uma região historicamente reconhecível, dotada de forte densidade cultural e uma rede de municípios pequenos e médios suficientemente articulados para que os efeitos de uma instituição como a UFRB se tornassem visíveis em pouco tempo. Ali, a universidade não se dissolveria numa massa urbana indistinta. Sua presença era perceptível, cotidiana, mensurável. E, pouco a pouco, tornou-se transformadora.
Não me refiro apenas aos impactos mais imediatos, embora sejam reais e expressivos. Refiro-me a algo mais profundo, à maneira como a universidade começou a alterar disposições sociais, expectativas coletivas, fluxos econômicos, repertórios culturais e horizontes de futuro. A chegada da UFRB introduziu no Recôncavo novas possibilidades. Passou a ser mais plausível, para as famílias, imaginar trajetórias educacionais que antes pareciam improváveis ou simplesmente inalcançáveis.
A Universidade exerce um papel incontornável na organização, geração e disseminação do conhecimento em todo o Sistema Educacional formal e não-formal. Ela é capaz de reorganizar todo o sistema nos territórios, tendo sido possível notar que o compromisso social com a escolarização ganhou ainda mais densidade. Por exemplo, é impressionante as histórias de nossos estudantes que participaram do Programa Ciência sem Fronteiras, do BRAFAGRI (Programa de intercâmbio acadêmico internacional voltado para estudantes das ciências agrárias, em parceria com a CAPES e instituições da França) e outros intercâmbios.
Consolidou-se, pouco a pouco, a percepção de que o acesso ao conhecimento qualificado poderia deixar de ser um privilégio distante para integrar de forma real a vida. Esse deslocamento é profundo. Universidades não transformam apenas por aquilo que ensinam formalmente, elas também agem por aquilo que faz uma sociedade passar a considerar possível. E talvez essa seja uma de suas formas mais decisivas de intervenção: alargar o campo do imaginável.
Com o tempo, tornou-se visível o surgimento de processos de reorganização territorial em torno da universidade. Na esfera econômica, a presença da UFRB passou a introduzir uma nova dinâmica de circulação de recursos. Remuneração de docentes e técnicos, investimentos em assistência estudantil, em obras e equipamentos, contratos de custeio, projetos de pesquisa e extensão – tudo isso passou a compor um fluxo econômico relativamente estável e com forte capacidade de capilarização.
Em cidades de menor porte, esse tipo de presença não é lateral. Ela altera o mercado imobiliário, pressiona os sistemas de transporte, reconfigura a oferta de serviços, amplia o consumo cultural, cria novas demandas urbanas e ativa setores antes adormecidos. Habitação, alimentação, deslocamento, lazer, conectividade, comércio, hospedagem, prestação de serviços: em maior ou menor grau, tudo isso passou a se reorganizar em função da universidade.
Mas talvez o que mais me impressionou ao longo dos anos não foi apenas esse dinamismo mais visível. O que mais me chamou atenção foi perceber como a universidade fortaleceu redes socioculturais e produziu novas formas de confiança compartilhada entre pessoas, grupos e instituições. A presença da UFRB ajudou a criar, no Recôncavo, um ambiente mais propício à circulação de ideias, ao reconhecimento de valores e saberes e à valorização de trajetórias antes invisibilizadas. Ampliou a construção de vínculos mais densos entre diferentes mundos sociais.
Uma universidade pública muda um território também, porque redistribui o direito à palavra, amplia a circulação das pessoas e abre novas posições de visibilidade. No caso da UFRB, isso se tornou especialmente perceptível no fortalecimento de grupos historicamente subalternizados, de comunidades tradicionais e de setores sociais que, por muito tempo, permaneceram à margem dos processos formais de produção e validação do saber.
A universidade não modifica diretamente as estruturas de desigualdade das sociedades. Mas pode produzir deslocamentos importantes. Vi, ao longo dos anos, nossos egressos e egressas começarem a ocupar espaços de destaque na gestão pública, na saúde, na cultura, na educação, na organização comunitária, na produção esportiva e em iniciativas locais de inovação social, empreendedorismo e tecnologia.
Em regiões historicamente marcadas por hierarquias rígidas e por formas persistentes de exclusão, a circulação de novos sujeitos em posições de fala e decisão produz efeitos simbólicos e materiais profundos. Não se trata apenas de mobilidade individual. Trata-se também de alteração do que uma sociedade passa a reconhecer como legítimo, desejável e possível.
A universidade ajudou a fortalecer práticas de cidadania, amadureceu ambientes de debate público e ampliou o grau de participação qualificada em diferentes esferas da vida regional. Com ela, eventos culturais passaram a surgir com maior frequência, grupos locais ganharam novas possibilidades de articulação, debates antes restritos a nichos específicos passaram a circular mais amplamente, e a própria noção de patrimônio, material e imaterial, começou a ser mobilizada de forma mais intensa e mais crítica.
Tudo isso representou, para o Recôncavo, mais do que a simples instalação de uma instituição de ensino superior. A universidade introduziu uma nova camada de vida social, uma nova energia histórica, uma nova gramática ao território.
Ainda estamos longe de compreender, com o rigor necessário, a relação entre expansão da escolaridade e transformação efetiva da estrutura produtiva e social do país. Nas últimas décadas, o Brasil avançou significativamente em termos de acesso à educação. Mas esse avanço não foi acompanhado, na mesma proporção, por aumentos consistentes de produtividade, sofisticação econômica e reorganização estratégica do trabalho.
Seria um erro grave medir a importância da UFRB apenas por aquilo que ela ainda não conseguiu converter em desenvolvimento estruturado. Há transformações que não cabem imediatamente nos indicadores, nos planos de governo ou nas métricas convencionais de desempenho institucional. A universidade também age quando move expectativas, quando altera a gramática, quando produz novos sujeitos e muda silenciosamente o que uma região passa a admitir como destino possível. E foi isso, acima de tudo, que a UFRB fez no Recôncavo.
A UFRB não resolveu, por si só, os impasses históricos da região. Não poderia. Mas introduziu ali algo decisivo: mais densidade de vida, mais circulação de saberes, mais presença pública do conhecimento, mais gente autorizada a revelar seus sonhos e a conquistar novos instrumentos para disputar o futuro do mundo. E, no Recôncavo, isso não foi pouco.