Desde o início, estabeleci com o professor Naomar Monteiro de Almeida-Filho uma relação de muito respeito. Ele sempre demonstrou confiança em meu trabalho, e tê-lo como referência na minha própria constituição como reitor foi, para mim, uma experiência de exigência e desafio positivamente constante.
A disposição do professor Naomar Almeida em pensar e executar projetos nos remete àquelas pessoas de uma outra época, referenciadas por Engels (1979) em A Dialética da Natureza:
"Os heróis dessa época não se achavam ainda escravizados à divisão do trabalho, cuja ação limitativa, tendente à unilateralidade, se verifica frequentemente entre seus sucessores. Mas o que constituía sua principal característica era que quase todos participavam ativamente das lutas práticas de seu tempo, tomavam partido e lutavam, este por meio da palavra e da pena, aquele com a espada, muitos com ambas. Daí essa plenitude e força de caráter que fazia deles homens completos. Os sábios de gabinete são a exceção: ou eram pessoas de segunda ou terceira classe, ou prudentes filisteus que temiam queimar os dedos."
Foi com grande surpresa que recebi uma ligação do nosso Reitor convidando-me para presidir a Comissão de Relatoria do Projeto de Políticas Afirmativas da UFBA.
À primeira vista, o convite me pareceu equivocado. Diante da força das ciências sociais e humanas na UFBA, ter um engenheiro agrônomo, com mestrado e doutorado em Solos, à frente de uma relatoria daquela natureza não me parecia a solução mais recomendável. Apesar do meu interesse por temas diversos, enfrentar aquele debate em interlocução com especialistas, militantes e setores fortemente posicionados da universidade - e em parcela relevante contrários às políticas afirmativas - não me parecia uma boa ideia. Pedi ao reitor uma conversa sobre o assunto. Marcamos para o final de uma reunião do Conselho Universitário.
Foi durante a própria reunião, enquanto eu ainda organizava mentalmente os argumentos com que pretendia recusar o convite, que - no ano da graça de 2004, numa sessão do Egrégio Conselho Universitário da Universidade Federal da Bahia, em uma cidade como Salvador, a Roma Negra, com cerca de 84% de pretos e pardos - percebi que éramos apenas dois negros presentes naquela reunião entre conselheiros: o professor Caiuby Alves da Costa (Diretor da Escola Politécnica) e eu. Naquele instante, fui tomado por uma sensação muito concreta de responsabilidade.
Aquela percepção me atravessou de forma definitiva. Não era apenas um dado estatístico. Salvador estava ali, naquele espaço de poder universitário, quase inteiramente ausente de si mesma. Naquele momento, compreendi que recusar o convite seria também recuar diante de um problema que já não podia mais ser adiado. Aceitei.
Uma vez mais me encontrava com as bifurcações do tempo, e o meu edifício dos saberes, composto por fragmentos de especializações, ganharia mais um tijolo. Evidentemente, construindo esse edifício em conflito interno permanente, nunca tive condições de assumir, como Haroldo de Campos (Campos, 1992) o fez, de forma tão competente e bem resolvida:
"Considero-me um especialista em fragmentos. Em matéria de passado de cultura estou sempre atento — falando de poesia — àquelas obras que respondam, de maneira viva, a uma pergunta extraída de uma circunstância produtiva do presente."
Comecei, então, a estudar o tema de forma mais sistemática. Logo percebi algo que se repetiria muitas vezes: o racismo parecia sempre um problema evidente nos outros, mas subitamente se tornava cheio de camadas quando a universidade precisava olhar para si mesma.
Esse foi um dos primeiros grandes temas debatidos de forma mais aberta e intensa na lista de e-mails da UFBA. Todos queriam opinar. Havia posições favoráveis, dúvidas sinceras, reações defensivas, ironias e agressividades veladas. O que anos depois as redes sociais radicalizariam ao extremo já se anunciava ali, em escala universitária.
As frases se repetiam com impressionante previsibilidade:
— "A Bahia é um lugar de mulatos!"
— "Raça não existe!"
— "Faça o que você quiser, eu não sou racista!"
— "E o mérito? Como fica?"
— "Professor Paulo Gabriel: régua é régua!"
— "O computador que determina os aprovados da UFBA olha a cor da pele dos candidatos?"
— "O nível da universidade vai cair!"
— "Você precisou de cotas para estar aqui?"
Era um repertório revelador. Ali estavam, ao mesmo tempo, a negação do racismo, a defesa abstrata do mérito, a recusa em reconhecer privilégios e o medo de perda de posição. O mais impressionante é que quase ninguém se percebia como defensor de um sistema de exclusão. Ao contrário: muitos se imaginavam guardiões da justiça, da excelência e da racionalidade - como se a universidade brasileira tivesse chegado ao século XXI por mecanismos puros, neutros e socialmente inocentes. Felizmente, muitos intelectuais participaram do debate com argumentos inequívocos em defesa das políticas afirmativas na UFBA.
O professor Pedro Prata, em intervenção nesse debate pela lista de e-mails dos docentes, citou estudos do Geneticista Sérgio PENA da UFMG sobre a matriz genética da população brasileira. As pesquisas demonstram que, na população feminina — nesse caso, por meio do DNA mitocondrial —, a matriz genética das mulheres com fenótipo branco se compõe, em média no Brasil, de 28% de haplogrupos africanos, 39% de haplogrupos europeus e 33% de haplogrupos ameríndios. No Nordeste, esse retrato molecular se apresenta com 44% de haplogrupos africanos, 34% de haplogrupos europeus e 22% de haplogrupos ameríndios. Essas informações foram apresentadas pelos geneticistas Sérgio Danilo Junho Pena e Maria Catira Bortolini (PENA; BORTOLINI, 2004) em artigo publicado na Revista de Estudos Avançados da USP , no qual afirmam que determinadas técnicas de pesquisa genética demonstram que cerca de 146 milhões de brasileiros — à época, 86% da população — apresentavam mais de 10% de contribuição africana em seu genoma.
O professor João Reis, também participando da lista de discussão, afirmou que pesquisas como essas precisam ser mais divulgadas como parte do combate ao racismo no Brasil, e acrescentou:
"O Brasil é um país miscigenado. Aliás, os Estados Unidos também, e diversos países da América Latina, idem."
Prosseguindo, o professor ressaltou que:
"esse aspecto biológico não se traduz imediatamente na mentalidade das pessoas, em nenhum lugar. Uma coisa é a biologia; outra é a sociologia ou a antropologia do fenômeno 'racial'. No Brasil, a cor da pele e outros traços físicos são pretextos para discriminar negativamente. Isso significa que ter a pele clara é possuir um capital simbólico que favorece grandemente o processo de ascensão social."
Com a ajuda de Márcia Vinhas (1964–2025) e Martim Silva, primos queridos que possuíam uma extraordinária biblioteca de ciências sociais e humanas, mergulhei de forma intensa na bibliografia do tema. Li, comparei, tomei notas, discuti argumentos e procurei compreender melhor uma questão que, até então, eu conhecia mais por sensibilidade política do que por estudo sistemático.
Passei também a conversar com acadêmicos, militantes e colegas de diferentes áreas. Quanto mais estudava, mais percebia que o problema não era apenas o subingresso de negros e pobres na universidade pública. O problema era mais profundo: tratava-se de uma instituição organizada historicamente para não se enxergar como parte ativa da reprodução da desigualdade brasileira.
Tive, nesse processo, o apoio importante dos demais membros da comissão: o professor Marcos Antônio Fernandes, diretor do Instituto de Matemática, e o professor Osvaldo Barreto, diretor da Escola de Administração.
Foi assim que redigimos a proposta de relatório que embasaria a deliberação da universidade. Mais do que elaborar um documento institucional, eu sentia que estava participando de um daqueles momentos em que a universidade é obrigada a decidir se continuará sendo apenas guardiã dos seus próprios privilégios ou se aceitará, finalmente, confrontar aspectos injustos da estrutura histórica que a constitui.
Algum tempo depois, vivi uma cena que nunca esqueci. Estava em um jantar na casa de um amigo, em Itabuna, quando um dos convidados sentou-se ao meu lado e me disse, com absoluta naturalidade:
- Sabia que você me dá um prejuízo de sete mil reais por mês?
Sorri, sem entender.
- Eu?
Ele insistiu:
- Não dê risada, não. Você é Paulo Gabriel?
Respondi que sim.
- Pois é. Meus dois filhos passaram no vestibular da UFBA, mas não entraram por causa da sua "cota". Por isso sou obrigado a desembolsar sete mil reais por mês para eles estudarem numa faculdade particular.
(Percebe-se pelo discurso que os filhos dele não chegaram a ser aprovados no vestibular da UFBA.)
A conversa foi cordial. Tratava-se de uma pessoa educada, contrária às cotas, mas capaz de sustentar o desacordo sem gritar ou transformar a divergência em guerra moral imediata. Conversamos longamente, embora sem conseguir mudar a opinião um do outro.
Mas aquela cena me marcou muito. Porque ela revelava, de forma quase didática, algo central naquele debate: a política afirmativa, ao contrário do que muitos queriam fazer parecer, não era uma disputa abstrata sobre princípios. Ela tocava interesses concretos, afetava expectativas familiares, deslocava trajetórias imaginadas e obrigava setores historicamente protegidos a lidar, pela primeira vez, com a experiência da concorrência real.
Talvez esse tenha sido um dos aspectos mais difíceis de admitir para parte da elite universitária e social brasileira: as cotas não introduziam uma injustiça inédita. Elas apenas interrompiam, ainda que parcialmente, a naturalidade com que certas vantagens sempre circularam como se fossem apenas fruto de esforço individual.
No processo de construção do relatório, destacou-se, para mim, a força do Movimento Negro. Evidenciou-se a capacidade de negros e negras - militantes e não militantes -, em articulação com não negros, de enfrentarem, ao longo de séculos, o racismo e as múltiplas formas de desumanização e, simultaneamente, construírem um consistente repertório argumentativo que, por fim, nos colocava diante dessas conquistas. Ademais, observa-se a capacidade desses segmentos de mobilizar forças significativas e, por meio de seus intelectuais, instituir novos campos de ensino, pesquisa e extensão na universidade, ancorados em critérios acadêmicos derivados de categorizações teóricas, conceituais e metodológicas, posteriormente traduzidas em currículo.
Mais tarde, Nilma Lino Gomes (2017) sintetizaria essa construção no título de seu livro, Movimento Negro Educador. No processo de discussão das políticas afirmativas da Universidade Federal da Bahia, pude constatar como o movimento negro foi capaz de produzir conhecimento não apenas para formar novos militantes, mas também para educar a sociedade em geral, avançando em direção à utopia de uma sociedade pós-racista.
Nesse processo, um debate sempre delicado é a questão do mérito. Para mim, sempre foi evidente que o mérito, quando dissociado das condições concretas de sua produção, funciona menos como critério de justiça e mais como linguagem legitimadora da herança social.
Essa questão é formulada de modo particularmente preciso por Michael J. Sandel (2020) em A Tirania do Mérito: O que aconteceu com o bem comum?. O autor argumenta que a meritocracia — compreendida como a crença de que as posições sociais decorrem exclusivamente do esforço e do talento individuais — não apenas fracassa em promover justiça distributiva, como também produz efeitos morais e políticos corrosivos. Ao creditar o sucesso aos “méritos próprios”, alimenta a arrogância entre os vencedores; ao atribuir o fracasso à suposta insuficiência individual, impõe aos demais experiências de humilhação e desvalorização social. Esse duplo mecanismo não só legitima as desigualdades existentes, como também intensifica ressentimentos que se projetam, inclusive, no campo político.
Não me parece exagero afirmar que é sobre essa crença meritocrática que se assentam as bases da sociedade brasileira — e, particularmente, da universidade. Superá-la constitui um desafio central para a construção de um projeto de país mais justo.
Há um aspecto discutido por Sandel (2020) que não pode ser negligenciado, sob pena de recuarmos nas lutas emancipatórias: A igualdade de oportunidade é uma correção moralmente necessária da injustiça. No entanto, não um ideal adequado para uma boa sociedade. Como princípio reparador é um primeiro e decisivo passo, mas devemos ter um projeto civilizatório para muito além delas. As políticas afirmativas, nesse sentido, cumprem um papel fundamental, quebrar barreiras é necessário: ninguém deve ser impedido de desenvolver sua potência humana pela pobreza ou pelo preconceito. Mas uma sociedade boa não pode ser fundamentada somente na promessa de liberdade. É preciso construir condições em que todos possam viver com decência e dignidade, desenvolvendo e exercitando suas habilidades em atividades socialmente valorizadas, compartilhando uma cultura amplamente difundida do aprendizado e deliberando, com seus concidadãos, sobre as questões públicas.
Nesse aspecto, há algo na canção País Tropical, de Jorge Ben Jor, que ressoa com esse ideal: a intuição de que a dignidade não depende de títulos formais, mas do reconhecimento construído na vida cotidiana e nas relações concretas com a comunidade.
“Posso não ser um band-leader/ Mas assim mesmo lá em casa todos os meus amigos/ Meus camaradinhas me respeitam, pois é/ Essa é a razão da simpatia/ Do poder do algo mais e da alegria”
Trata-se de uma imagem simples, mas longe de trivial, para pensar o que significa uma sociedade em que todos se reconhecem como iguais em valor.
Participar desse processo foi decisivo para os desafios que viriam em seguida. A experiência acumulada ali me ofereceu repertório político, densidade intelectual e segurança institucional para decisões futuras. Mais do que isso: ela alterou de forma duradoura a minha maneira de compreender o que uma universidade pública brasileira precisa enfrentar se quiser, de fato, merecer esse nome.
Quando a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia foi criada, já sabíamos que não faria sentido inaugurar uma nova universidade pública sem enfrentar, desde o início, a questão da desigualdade racial e social no acesso e na permanência. A UFRB aplicou reserva de vagas já em seu primeiro vestibular. E foi também com base nessa trajetória que tivemos convicção suficiente para propor e criar a primeira Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas do Brasil. Isso não surgiu do nada. Nada disso foi simples gesto de modernização administrativa ou adesão retórica a uma pauta do momento. Era consequência de um aprendizado institucional, político e ancestral que já não permitia inocência.
O que começou, para mim, como um convite inesperado e quase recusado acabou se convertendo em uma das experiências formativas mais importantes da minha vida universitária.
CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem & outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. (Coleção Debates).
ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza. Tradução de Paulo Pires. Lisboa: Editorial Presença, 1979.
GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos na luta por emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
PENA, Sérgio D.J; BORTOLINI, Maria Catira. Pode a genética definir quem deve se beneficiar das cotas universitárias e demais ações afirmativas? Estudos Avançados São Paulo, v.18, n. 50, Jan./Apr. 2004 versão impressa INSS 0103-4014.
SANDEL, Michael J. A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum?. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.