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AS BIFURCAÇÕES DA VIDA E A ELEIÇÃO DE 2002 PARA DIRETOR DA ESCOLA DE AGRONOMIA

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Publicado: 03 Janeiro 2022

– Este é o primeiro texto da série HISTÓRIAS DA UFRB E DO RECÔNCAVO. 

A Escola vivia a agonia de uma crise que se arrastava há décadas. Único centro de ensino superior federal no interior da Bahia, falta de pessoal, dificuldade de acompanhar as inovações tecnológicas e acadêmicas que ocorreram em outros centros, com forte endogenia, sem nunca ter encontrado um lugar institucional sustentável no conjunto da UFBA e, para completar, no Provão (Exame Nacional de Cursos) aplicado pelo INEP em 2001, exibimos a pior nota de um curso de agronomia do País, fato que ainda se repetiria em 2005, já no ENADE (Essas notas inclusive seriam responsáveis pela primeira crise da UFRB, em 2007).

Iniciamos 2002 na perspectiva de mais uma eleição entre os velhos grupos de professores que se revezavam na Diretoria desde sempre. Naquela sucessão, dois candidatos colocaram-se nos seus polos tradicionais: Luiz Gonzaga Mendes, de um lado e Valfredo da Silva Pereira, do outro.

O professor Luiz Mendes possuía um discurso liberal e meritocrático com articulações no Governo Federal (Fernando Henrique Cardoso) e Estadual (Paulo Souto), tinha capacidade de captar projetos de estudos e consultorias na área do agronegócio e assim arregimentava, compreensivelmente, o apoio de jovens professores e do setor mais ligado à produção científica, cansados de tantas crises. O professor Valfredo Pereira possuía o apoio dos setores docentes mais à esquerda, servidores e estudantes engajados no movimento estudantil.

Conhecedor daquelas disputas, não me entusiasmava com nenhum dos dois candidatos. Foi fácil perceber que havia um pequeno segmento que não se sentia representado por aquelas candidaturas, professores e técnicos-administrativos mais jovens e estudantes, todos com preocupações acadêmicas e uma visão progressista da sociedade. Assim, formamos um grupo que envolvia professores como Gilka, Alícia, Warli, Carlos Augusto e eu, e servidores técnico-administrativos como Edson, Manuel, Aída e Florisvaldo. A esse grupo juntou-se o professor Geraldo Costa, da velha guarda, mas que também percebia a exaustão daquela disputa antiga e repetitiva. No início, Geraldo considerava impossível entrarmos naquela disputa, mas logo transformou-se num alicerce fundamental de todo processo que se desenrolaria nos anos seguintes.

Definimos que o nosso candidato seria o professor Warli. No final do processo, o nosso candidato definiu não se inscrever, apesar de todos os nossos apelos. Mais uma vez a eleição ocorreu entre os dois velhos grupos.

Como esperado, Luiz Mendes ganhou a consulta com ampla votação nos três segmentos. Votei em Valfredo por não acreditar no modelo de universidade/empresa apresentado pelo professor Luiz Mendes e também porque pelo histórico da nossa relação não haveria nenhuma possibilidade de composição. Eu participara do Movimento Estudantil quando ele havia sido Diretor da Escola de Agronomia na década de 1980 e a nossa relação sempre foi de embates duros, deixando arestas nunca resolvidas.

Em 2002, eu era Chefe do Departamento de Química Agrícola e Solos e o grupo vencedor da eleição tratou de anunciar que enquanto eu fosse a representação do Departamento não haveria diálogo com a gestão vindoura. A vitória daquele grupo político anunciava um período de turbulências para mim, então, aproveitando um convite dos professores Nicholas Comerford e Jorge Gonzaga, comecei a planejar a minha ida para um pós-doutorado na Universidade da Flórida, projeto que foi abortado pelos acontecimentos supervenientes. Aqueles dois anos após o retorno do doutorado foram bem produtivos, consegui os primeiros financiamentos de projetos de pesquisa, estava concluindo a minha quinta orientação no mestrado da Escola de Agronomia e com boas parcerias com programas de pós-graduação e pesquisadores da EMBRAPA, CEPLAC, UFS, UESC, UFV e Universidade da Flórida.

Como muitas vezes ocorria na nossa Escola, a divulgação dos resultados da eleição não significava o fim das disputas e do processo eleitoral – os recursos e apelações eram comuns. O grupo derrotado, tendo o controle da Congregação da Escola de Agronomia, buscou alguma falha no processo eleitoral com vistas a anular eleição. Como sempre, conseguiu: Identificou-se que a representação estudantil já havia completado o seu mandato na Congregação e não houve ato oficial prorrogando os mandatos dos estudantes. Assim, a Justiça Federal determinou inválidos todos os atos da Congregação que contou com os votos dos estudantes. Isso incluía, é claro, a anulação da lista tríplice e, por consequência, a necessidade de uma nova eleição.

Confesso, eu considerava aquela anulação tempo perdido – era nítido que a comunidade expressou o desejo genuíno de ter o professor Luiz Mendes na sua direção. Com isso, criei arestas com o grupo que defendeu a tese da anulação. O professor Mendes falava, com razão: “Podem anular dez eleições, eu continuarei ganhando todas!”

Felizmente a vida é um livro a ser escrito por autores que nem sempre controlamos, e nos meses seguintes alguns fatos mudaram radicalmente a correlação de forças na Escola de Agronomia como poucas vezes na sua história. Em agosto, na Reitoria da UFBA, o Professor Heonir Rocha (com vínculos com Cruz das Almas e aliado do Professor Luiz Mendes) foi sucedido pelo professor Naomar Monteiro de Almeida-Filho e, em outubro, ocorreu a eleição de Lula para a Presidência da República. Com isso, tivemos uma clara fissura na hegemonia exercida pelo professor Luiz Mendes e ele, ao perceber isso, definiu não se candidatar para o novo processo de escolha de Diretor, anunciando o apoio ao professor Alino Santana que passou a ser o concorrente do Professor Valfredo na disputa.

Mais uma vez o nosso pequeno grupo definiu apoiar uma candidatura alternativa, representada pelo professor Warli e começamos a fazer campanha.

No último dia das inscrições, o professor Warli desistiu da candidatura. O nosso grupo definiu que ainda assim nos manteríamos no pleito com um candidato – precisávamos, no mínimo, marcar a nossa posição. Meu nome foi escolhido para representar o grupo. Contribuiu para isso eu ser o mais conhecido da comunidade acadêmica, afinal quinze anos antes eu havia atuado intensamente no movimento estudantil naquele campus e no período após a graduação tinha desenvolvido ações que geravam alguma visibilidade social. Não tive opção. Lembro que a professora Gilka redigiu o requerimento e imprimiu meu currículo – apresentamos o programa de gestão já elaborado para o nosso candidato anterior.

Naquele momento, a Escola estava bem dividida entre os dois candidatos e os setores tradicionais da esquerda mantiveram o seu apoio ao candidato Valfredo – havia um argumento razoável para isso: aquela disputa já se desenrolava há um ano e a minha candidatura foi colocada muito tarde. Eu brincava: “Não preciso de apoio para ganhar, preciso de apoio para governar!”. Com isso, todos ficavam tranquilos. Afinal, era um consenso que a minha candidatura não tinha chance!

Para a surpresa de todos, tivemos uma vitória avassaladora nos três segmentos, sempre com votação acima de 70%. Lembro que alguém do nosso grupo brincou: os novos ventos que sopram no País chegaram ao Recôncavo profundo (“E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo, meu medo”).

Durante a campanha, apresentamos a ideia de transformação da Escola de Agronomia numa instituição independente da UFBA. Eu insisti nessa ideia, mas isso parecia algo distante do debate da comunidade e, mesmo com a ascensão de Lula e o tema da interiorização do ensino federal superior na Bahia estar presente nos pronunciamentos do novo reitor da UFBA, isso não parecia uma temática pertinente para aquele nosso contexto (como abordarei em outros textos, depois aprendemos que essa reação à inovação não é restrita à comunidade da Escola de Agronomia).

É importante registrar que em meio a tantas instabilidades, o Diretor Pró-tempore, Professor Clóvis Pereira Peixoto, foi responsável por uma transição tranquila e transparente, colaborando assim para que o processo de transmissão de cargo ocorresse sem problemas. Um indicativo importante dessa postura foi a sua presença na minha solenidade de posse – fato raro naquela comunidade.

A nossa posse ocorreu na manhã do dia 14 de março de 2003. A percepção política de Geraldo Costa transformou a solenidade num evento memorável. Ele percebeu que era o primeiro grande evento que ocorria no Recôncavo desde a posse do Presidente Lula e buscou transformar esse momento num ato político de apoio ao nosso projeto. Sonia Bahia, esposa do professor Geraldo, esmerou-se em organizar um café da manhã típico do Recôncavo que serviu trezentos convidados. O sabor dos quitutes foi falado aos quatro ventos e por muito tempo. Ainda hoje devemos os custos dessa festa ao nosso professor. A presença de Prefeitos, Deputados e lideranças de toda a Bahia foi uma clara demonstração de que todos esperavam a apresentação de um projeto de impacto naquela manhã e ele veio na forma da proposta de criação da UFRB. A comunidade da Escola de Agronomia assistiu, um pouco assustada, àquilo tudo.

Demonstrando uma intenção que se expressaria na prática nos anos seguintes, o professor Naomar convocou o Conselho Universitário da UFBA que, sinais dos tempos, realizou a sua primeira reunião fora de Salvador. Naqueles três anos que seguimos até o início das atividades da UFRB, o professor Naomar visitou a Escola de Agronomia mais do que a soma de todos reitores da UFBA desde 1967, quando o campus de Cruz das Almas foi incorporado à universidade.

No dia da posse, o Conselho Universitário da UFBA autorizou o Reitor a criar uma comissão com vistas a apresentar o projeto de desmembramento da Escola de Agronomia e a criação da Universidade Federal do Recôncavo. Numa demonstração de compromisso com aquele projeto, Naomar indicou o seu Vice-Reitor, Francisco Mesquita para coordenar a Comissão.

Lembro que dias depois da posse, o pequeno grupo mais orgânico que dava sustentação à Diretoria me chamou para uma reunião. Em resumo, me foi dito que não era possível priorizarmos o projeto de luta por uma universidade naquele momento, precisávamos focar na resolução dos problemas da Escola de Agronomia.

A minha resposta foi no sentido de concordar com as preocupações, afinal a Escola de Agronomia realmente tinha problemas das mais diversas dimensões. Ponderei, no entanto, que as raízes dos nossos problemas estavam na institucionalidade constituída no processo de incorporação da Escola à UFBA e que não conseguiríamos ir longe na busca por soluções das nossas questões naquele arranjo institucional. Naquela estrutura não haveria salvação para a nossa Escola. Precisávamos usar a posição de mais antiga instituição federal de ensino sediada no interior da Bahia (desde 1859) para liderar um projeto de fôlego, afinal, o Governo Lula e o Reitorado de Naomar eram uma oportunidade única que não tínhamos o direito de abandonar.

Nessa noite, houve quem ponderasse sobre a pertinência de lutar por um Centro de Ciências Agrárias ou por uma Universidade Federal Rural da Bahia (UFRB). Felizmente venceu o projeto da Universidade Federal do Recôncavo (UFR).

Definimos naquela reunião que o esforço para a conquista da Universidade passaria a ser o principal eixo da gestão que se iniciava. Eram os primeiros dias de abril de 2003. Estávamos prontos para a luta!

Universidade Federal de Dona Canô – UFRB

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Publicado: 25 Dezembro 2021

Paulo Gabriel Soledade Nacif

“Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô”

Caetano Veloso

Hoje, 25 de dezembro, é dia do Recôncavo lembrar de Dona Canô. Há nove anos, neste dia, ela nos deixava em direção ao Orum!

Depois de muitos anos de implantada, a UFRB é uma realidade e a história da luta pela sua constituição vai, compreensivelmente, ficando para trás. Há quem faça questão de declarar que “a mobilização pela criação da UFRB pouco significado teve, na medida em que a expansão do ensino superior era algo anteriormente definido pelas estruturas de poder”. Para isso, como prova dessa estranha tese, citam o Programa REUNI-2007, que veio logo após a criação da universidade. Discordando dessa posição, perguntaria  a eles por que então a expansão do ensino superior federal na Bahia começou exatamente aqui? Por que começou aqui no Recôncavo e não em outras regiões com maior dinamismo econômico e maior importância política?

A Escola de Agronomia era um bom motivo? Um campus, com apenas um curso de graduação  e um mestrado, até poderia ser uma boa razão, mas não era suficiente para sensibilizar quem tomava decisões. Não há outro caso de um  campus, pequeno como o nosso, transformado em sede de uma nova instituição à mesma época.

Não tenho dúvidas, a mobilização da comunidade foi o fator determinante para que, registre-se, contra um prognóstico inicial presente no próprio Governo Federal, a expansão do ensino federal superior na Bahia começasse pelo Recôncavo. A mobilização chegou a câmaras de vereadores, escolas, sindicatos, Clube de Diretores lojistas, deputados, senadores. Mobilizamos todo o Recôncavo e a Bahia. E, no percurso da construção da UFRB, precisamos lembrar da participação de Dona Canô nessa história. 

Ainda em 2003, fui levado a Dona Canô, que logo disse: “Uma universidade vai ser tão bom. Eu me preocupo tanto com os jovens, eles param de estudar, ficam sem emprego. Eu vou falar com Lula”. E depois disso, ela participou ativamente da campanha, emprestando a sua imagem, sua assinatura, vestindo a camisa, dando declarações e, inclusive, falando com Lula. Em uma reunião em Brasília, após ser cobrado por grandes lideranças políticas sobre a criação da UFRB, o Presidente Lula disse com muito carinho: “Essa universidade do Recôncavo é um pedido de Dona Canô!” O professor Henrique Paim, ex-Ministro da Educação, sempre lembra da preocupação do Presidente Lula em cumprir os acordos com Dona Canô. Ele brinca: “Ela era poderosa!”

Em 2004, quando houve a reunião do Conselho Universitário da UFBA para aprovar o desmembramento da Escola de Agronomia para a criação da UFRB, lá estava Dona Canô no Salão Nobre da UFBA. Um Conselheiro, que fazia oposição ao mandato do Reitor Naomar, me chamou à parte e brincou: “Vocês estão indo muito rápido! Uma instituição como a UFBA não pode ficar sem um curso de Agronomia! Eu ia pedir vista ao Processo, mas fique tranquilo, não vou fazer isso na frente de Dona Canô”.

Em 2006, quando o Presidente Lula veio lançar a UFRB, lá estava Dona Canô. Ela foi até Cachoeira, visitou as obras do Quarteirão Leite Alves com o Presidente, mas a família preferiu que ela não o acompanhasse até Cruz das Almas para não cansá-la demais.

E, por favor, não duvidem: Dona Canô, até o final, sempre teve a exata dimensão do que fazia. Em fevereiro de 2012, portanto, poucos meses antes dela partir, em visita a Santo Amaro, com uma delegação da UFRB, fomos convidados para tomar um suco com Dona Canô. Ela disse: “A universidade agora tem que vir para Santo Amaro. Uma universidade vai ser tão bom. Eu sempre me preocupo tanto com jovens, eles param de estudar, ficam sem emprego.” Exatamente o que tinha dito há nove anos.

Nessa última vez em que estive com ela, chegamos à casa, conduzidos por Rodrigo, um de seus filhos. Eu estava muito preocupado em causar algum incômodo a uma senhora de 104 anos. Disse-lhe: “Benção, Dona Canô”. E ela respondeu, brincando, com um sorriso delicado e me deixando à vontade: “Meu filho eu abençoo tanta gente simples aqui em Santo Amaro, quanto mais um REI-TOR”.

Sua vida merece ser lembrada e celebrada!

Lembro que ao final dessa nossa última visita, escutei de uma professora: “Em meio a tantas coisas geniais que Caetano Veloso e Maria Bethânia fizeram, ainda acho que a maior obra-prima deles é Dona Canô.” Realmente, revelar para o Brasil o encanto e a sabedoria singular de uma mulher comum do Recôncavo é uma tarefa para gênios!

Um dia ela voltará numa “estrela colorida e brilhante, de uma estrela que virá numa velocidade estonteante” e, mais uma vez, “aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto, quando terá sido o óbvio“.

Felicidade é brinquedo que não tem!

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Publicado: 22 Dezembro 2021

Paulo Gabriel Soledade Nacif

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. ”  (Trecho do Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade, 1928).

O personagem foi inspirado em São Nicolau, arcebispo de Mira na Turquia, no século IV, mas foi somente em 1931, por meio de uma campanha publicitária da Coca-Cola, que o Papai Noel ganhou o aspecto mais próximo do que conhecemos.

É incrível constatar que em 1932, já no ano seguinte à campanha da Coca-Cola, um baiano de Teodoro Sampaio enfrenta o mito de Papai Noel produzindo uma pérola preciosa, única e inesquecível – “Boas Festas”. A música estrutura o poema ou é o texto que inspira a música?

Essa música do meu conterrâneo Assis Valente salva o meu Natal. Sempre sinto muito orgulho quando vejo que o Natal brasileiro, apesar do Bom Velhinho com todo o seu excesso de roupas, todo o seu consumismo, suas frases feitas, sua neve e seus pinheiros, floridos de hipocrisias, foi “antropofagado” – digerido pela genialidade de Assis Valente, baiano lá de Bom Jardim (antigo nome de Teodoro Sampaio), nas cabeceiras do Recôncavo, à época um distrito de Santo Amaro. É isso: acontece que eu sou baiano… Assis Valente engoliu, regurgitou e novamente remastigou o colonizador.

“Boas Festas” é uma música tipicamente brasileira, cheia de ironias e desafios escondidos numa falsa ingenuidade.

Veja que gênio!

Ele começa candidamente, mas eufórico, feliz:

“Anoiteceu

E o sino gemeu

E a gente ficou

Feliz a rezar”.

Rapidamente, ele aproveita o momento de submissão e candura e faz o seu pedido:

“Papai Noel, vê se você tem

A felicidade pra você me dar”.

Como nunca recebe o presente, Assis Valente entra com toda a ironia de quem conhece todos os sotaques da tristeza:

“Eu pensei que todo mundo

Fosse filho de Papai Noel

E assim felicidade

Eu pensei que fosse uma

Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi

Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreu

Ou então felicidade

É brinquedo que não tem.”

Tudo isso numa música linda, cheia de ritmo, lirismo, tensões e antagonismos que penetra e embala o Natal de norte a sul ou, como diz John Lennon: Todo o natal – do enfermo e do são, do rico e do pobre, do branco e do negro, do amarelo e vermelho.

A música “Boas Festas” é uma ópera, uma peça de teatro, um livro, um filme e também uma série para uma dessas plataformas da era digital. Faz a gente imaginar mil pessoas, idosas, adultas, jovens e crianças tristes que aguardam pela visita de um Papai Noel que nunca chega. É um pouco a história de vidas como as nossas, nada heroicas, comuns, com frustrações no passado e à espera das que surgirão nas esquinas e becos por onde vamos caminhar. Felicidade é brinquedo que não tem!

Como o mundo é cheio de contradições, o conjunto “As Melindrosas” (1978), Simone (1995), Gaby Amarantos (2013) e até Milton Nascimento (2015) fazem o movimento inverso do pretendido por Assis Valente e não se envergonham de defender o Papai Noel da Coca-Cola: Transformam essa obra-prima numa monótona batida de carnaval, eliminando toda a complexidade da criação. Antropofagia reversa?

Assis Valente, depois de viver em Alagoinhas, Senhor do Bonfim e Salvador, mudou-se com 17 anos para o Rio de Janeiro. Lá foi protético, teve seus desenhos publicados em revistas, escreveu peças de teatro, mas foi como compositor que alcançou grande sucesso nas vozes de ícones como Carmem Miranda, Dorival Caymmi, Orlando Silva e Herivelton Martins.

A sua música “Brasil Pandeiro” dialoga à perfeição com “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. Para essa gente bronzeada mostrar seu valor é necessário abrir a cortina do passado, tirar a mãe preta do cerrado. E botar o rei congo no congado.

Ele também compôs “Meu Moreno Fez Bobagem” e “Camisa Listrada”. Ainda hoje há imbecis para estranhar como Chico Buarque escreve letras de algumas músicas tão femininas, então, imagine como era na década de 1940 um compositor que escreveu: “Meu moreno fez bobagem / Maltratou meu pobre coração / Aproveitou a minha ausência / E botou mulher sambando no meu barracão / Quando eu penso que outra mulher / Requebrou pra meu moreno ver / Nem dá jeito de cantar /Dá vontade de chorar/ E de morrer”.

Enfrentando preconceito de cor, possivelmente tendo que explicar a sua orientação sexual, sempre com dificuldades de recolher os seus direitos autorais que hoje o transformariam num milionário e lidando com vícios como a cocaína, não é por acaso que Assis Valente é autor de expressões ainda populares no Brasil, como por exemplo nos versos: “Deixa estar jacaré/ Que o verão vai chegar/ Quero ver se a lagoa secar.”

A criatividade genial desse baiano o fez também um dos precursores das marchinhas juninas e já em 1933 ele compôs a música “Cai, cai, balão”, sempre com ironias tristes: “Eu também sou um balão / Vou subindo de mentira / No azul da ilusão / Meu amor foi a fogueira / Que bem cedo se apagou / Hoje vivo de saudade / É a cinza que ficou!”

Esse gênio da raça morreu no dia 06 de março de 1958, aos 47 anos. Num bilhete, deixou o último “verso”: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo. ”

É, Papai Noel: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”.

 

 

01 de Novembro: Dia do Recôncavo

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Publicado: 02 Novembro 2021

“E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo
Meu medo”
 Caetano veloso

 
No dia 01 de novembro de 1501, quando os navios da expedição portuguesa penetraram na maior baía do litoral que buscavam conhecer, o corpo de água que se impôs, pelas forças geológicas, nas entranhas das terras que o cercavam foi chamado de “Todos os Santos”. Antes, aquelas águas eram chamadas de Kirimurê, pelos Tupinambás. Começava ali uma nova estruturação sociocultural do Recôncavo, uma região que é estratégica para o entendimento do Brasil.

Já sugeri à UFRB e a representantes da sociedade baiana que o dia 01 de novembro fosse designado como “DIA DO RECÔNCAVO”. Ainda considero essa ideia relevante. Uma data para refletirmos tantos séculos da nossa construção sociocultural e que resulta na expressão do que somos e não somos no presente. É lamentável que o projeto do Instituto de Estudos Avançados do Recôncavo, apoiado, à época, inclusive pelo Governo Federal, não tenha prosperado.

Lembro de Gilberto Gil me orientando: “Reitor, sua missão em organizar a UFRB é muito importante para o nosso projeto de cultura: é impossível entender o Brasil, sem se entender a Bahia; é impossível entender a Bahia sem se entender o Recôncavo!

O termo Recôncavo, originalmente usado para designar o conjunto de terras em torno de qualquer baía, se associou, no Brasil, desde os primórdios da colonização, à região que forma um arco em torno da Baía de Todos-os-Santos. Essa região se caracteriza não apenas pelas suas incríveis variáveis físico-naturais, mas, sobretudo, por sua história e dinâmica sociocultural.

É bastante conhecida a emergência do complexo canavieiro ao norte dessa Baía (nos solos localmente denominados massapês), associado, no sul do Recôncavo e ao norte de Salvador, à produção de gêneros alimentícios, madeiras e fumo. Nesse processo, os colonizadores portugueses dizimaram dezenas de aldeias tupinambás e fizeram do Recôncavo um dos principais destinos da diáspora africana. Aqui, as ações dos donos do poder encontraram infinitas formas de resistência por meio de rebeliões, fugas, negociações e redimensionamentos culturais, exercitados pelos povos dominados.


 
O Recôncavo produziu grandes riquezas. No entanto, a resistência às inovações está entre os motivos que determinaram um grave atraso na sua modernização socioeconômica. A modernidade no Recôncavo, inclusive em Salvador, só ocorreu com a exploração do petróleo a partir da década de 1950, quando aconteceram importantes mudanças nas relações de poder nessa sociedade. Todo esse processo ajuda a explicar o lugar do Recôncavo nas divisões do trabalho em escalas global e nacional e seus desdobramentos locais. É notável a similaridade entre alguns mapas do Recôncavo propostos desde o século XVIII até o presente. Nesses estudos, o Recôncavo forma um semicírculo (com cerca de 10.500 Km2), abrangendo o norte de Salvador até Mata de São João e Alagoinhas; a área de solos massapês, localizada ao norte da Baía; as terras baixas de Maragogipe a Jaguaripe; e as regiões mais elevadas de Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus. É extraordinária a permanência dos vínculos que determinam a existência dessa região. Contribuem para isso, o subespaço longamente elaborado e por muito tempo estável, a presença de Salvador e da Baía de Todos-os-Santos, e, como lembra o geógrafo Milton Santos (1926-2001), “as iconografias que mantém a ideia de região através da noção de territorialidade, que une indivíduos herdeiros de um pedaço de território”. Percorrendo o Recôncavo, é possível observar entre seus habitantes uma sensação de pertencimento à região, o reconhecimento de uma história comum e uma interessante referência a muitos hábitos e tradições. Evidentemente, tudo isso foi forjado “aos trancos e barrancos” – no sentido que Darcy Ribeiro emprestou ao termo. Assumir o conceito de Território de Identidade não pode significar o esquecimento do velho (e ainda tão atual) Recôncavo da Bahia. 

Na segunda metade do século XX, o Recôncavo passou por muitas transformações. Mudanças da matriz de transportes criaram uma densa rede de estradas e redefiniram o protagonismo de determinados centros urbanos. A área mais próxima de Salvador se constituiu numa região metropolitana (não confundir com a Mesorregião Metropolitana de Salvador). A exploração de petróleo e a instalação do Pólo Petroquímico de Camaçari definiram novos subespaços. O desenvolvimento de Feira de Santana estabeleceu sombreamentos de áreas de influências. Com tudo isso, houve uma redução da coerência funcional da região, mas não suficiente para diminuir territorialmente ou conceitualmente o Recôncavo. Certamente, valorizar o Recôncavo tem importância estratégica para aqueles que consideram relevante, como ensinou Milton Santos: “… pensar na construção de novas horizontalidades que permitirão, a partir da base da sociedade territorial, encontrar um caminho que nos libere da maldição da globalização perversa que estamos vivendo e nos aproxime da possibilidade de construir uma outra globalização, capaz de restaurar o homem na  sua dignidade”.

Universidade Livre, Educação Popular

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Publicado: 01 Março 2020

Paulo Gabriel Nacif

Enquanto a elite brasileira sempre deu pouca atenção à educação, no seio do nosso povo, nas lutas por liberdades, nasceram processos educativos únicos estabelecidos pelas classes populares, desde sempre, nas senzalas, no campo, nos quilombos, nas florestas, nos espaços ribeirinhos, nas periferias das cidades, nas fábricas, em sindicatos, nas comunidades de base, nas igrejas, nas universidades e, hoje, também, nos espaços virtuais, novos ou contíguos a muitos desses outros espaços. Antes ou no presente, não é possível entender a organização, a resistência, as lutas e conquistas do povo brasileiro sem a educação popular.

A educação popular teve um importante momento no Brasil no movimento anarcosindical da década de 1920, passando pelas campanhas de alfabetização na década de 1940 e 1950. Esse período se encerra com o golpe de 1964 e dá início a uma nova fase de resistência à ditadura e da luta pela redemocratização das décadas de 1970 e 1980, marcadas pelo fortalecimento dos movimentos de educação e da educação popular como instrumento de organização dos movimentos populares.

Em diferentes momentos históricos e nas mais diversas culturas, no Brasil e no mundo, sempre surgem processos que evidenciam a busca de homens e mulheres pela construção de espaços formais, não formais e informais de educação.

É possível citar as ágoras – espaços públicos por excelência, da cultura da política e da vida social dos gregos e onde Sócrates conseguiu atrair multidões de jovens, seduzidos por uma nova maneira de buscar a verdade. Ao sul,  atravessando o Mediterrâneo, na África Ocidental, temos a experiência tão rica e diversa dos Griot, pessoas que escolheram a vocação de preservar e transmitir as histórias, conhecimentos, canções e mitos do seu povo, por meio da música, como contadores de histórias e aconselhamento e, assim, ensinam a arte, o conhecimento de plantas, tradições, histórias.

Essa necessidade de preservar, espraiar e buscar novos conhecimentos sempre se intensifica em períodos de mudanças socioculturais paradigmáticas e foi assim que surgiram as primeiras universidades livres oitocentistas, voltadas à construção da cidadania por meio da democratização do conhecimento.

A medida que a democracia e a revolução tecnológica revelavam desafios inéditos aos europeus, em setores progressistas daquela sociedade afirmaram-se projetos voltados à formação de cidadãos para aquele novo mundo que nascia.  Aos olhos dos liberais, comunistas, anarquistas e republicanos, as universidades clássicas, demasiadamente burocratizadas e elitistas, não estavam aptas a responder aos desafios da democratização do ensino. Desse modo, esses setores construíram projetos de instrução e promoção das condições de vida do operariado. Foram inúmeros projetos de escolas profissionais, cartilhas e manuais de leitura popular e ensino laico, progressivamente generalizado a todos os grupos sociais.

Nesses espaços atuavam professores, estudantes e os próprios operários, dando origem ao conceito e modelo de universidade livre, tensionando o surgimento de extensões universitárias informais em toda a Inglaterra oitocentista, a partir da experiência da Universidade de Cambridge. Aquelas universidades livres planejavam seus cursos conforme a necessidade do público ao qual se dirigiam para que ele estivesse apto a   trabalhar o mais rápido e breve possível. Trata-se, portanto, de um modelo calcado no aspecto social de democratização do ensino e na formação profissionalizante. Nesse mesmo movimento surgem as experiências designadas por “University Stettlements”, promovidas por estudantes universitários que realizavam sessões de esclarecimento em bairros operários, constituindo-se na base de projetos de universidades populares que se espalharam por toda a Europa, entre o final do século XIX e início do século XX. Inclusive, o Caso Dreyfus (1894 a 1906) influencia o surgimento de muitas iniciativas nesse campo. Evidentemente o decisivo papel exercido nesse processo pelo romancista Émile Zola, marca o reconhecimento social do “intelectual”, expressão usada para designar professores, escritores, pintores e atores que passam representar interesses mais universais de justiça e isso estimula a vontade coletiva de contribuir para o fortalecimento da cidadania por meio da educação.

É certo que em decorrência do novo significado que o conhecimento ganha para toda a sociedade contemporânea, notadamente para a cultura, a economia, o respeito à diversidade e a sustentabilidade, não há dúvidas que há possibilidades para construção de espaços relacionados ao fortalecimento de ações associadas à educação ao longo da vida e é nesse campo que firmamos a defesa da importância da educação popular na contemporaneidade. Referimo-nos, portanto, a uma atualização conceitual das universidades livres oitocentista, como, de resto, ocorre em iniciativas semelhantes em todo o mundo: diante dos desafios paradigmáticos da contemporaneidade, criar um espaço para democratizar a cultura de modo a possibilitar a autoconstrução cidadã.

Uma universidade livre tem como objetivo maior oferecer alternativas culturais e de formação educacional à sociedade, com uma estrutura complementar às ofertas institucionais voltadas à educação formal. Essas universidades livres, tem como característica definidora a liberdade para gerar e transferir conhecimentos sem registros ou permissões governamentais.

São inúmeros exemplos em todo o mundo de iniciativas de sucesso de universidades livres, havendo, inclusive, a Associação de Universidades Populares da França (AUPF) e a Associação das Universidades Populares da Suíça (AUPS).  Nos EUA é possível citar a John C. Campbell Folk School, na Carolina do Norte e a Driftless Folk School, no Wisconsin. No Brasil, dois exemplos importantes são a Universidade Livre do Meio Ambiente, criada em 5 de junho de 1991, em Curitiba – PR, e em pleno funcionamento e a Universidade Livre de Música (ULM) que teve Tom Jobim como primeiro reitor e presidente do conselho, criada em 1989 e, infelizmente, convertida no Centro de Estudos Musicais Tom Jobim, em 2001.

Esse conjunto de instituições possui arranjos e objetivos e públicos muito variáveis, mas tem sempre como princípio fundamental contribuir com a educação ao longo da vida e a educação popular na sociedade em que se insere. É uma incógnita o porquê de experiências de universidades livres não se amplia no Brasil.

A necessidade da adoção da educação ao longo da vida como base norteadora das políticas educacionais e de ação dos movimentos sociais requer uma articulação que busque estabelecer a sinergia dos diferentes modos de aprendizagem de maneira que ela se amplie para toda a duração da vida e generalize-se para todos os domínios dessa vida. Mais que isso, é fundamental ter como meta a construção de uma sociedade em que todas as pessoas possam participar desse processo de aprendizagem, planejando elas próprias seus percursos formativos e a associação destes com a sua inserção familiar, cultural, ambiental, social e, particularmente, no mundo do trabalho. Adicionalmente esforços objetivos devem incentivar e dotar as pessoas de meios para participar mais ativamente em todas as esferas da vida pública moderna, em especial na vida social e política em todos os níveis da sua comunidade local, estadual, nacional e mundial.

Sem dúvidas, no Brasil atual, mais do que nunca precisamos retomar com força as experiências da educação popular e, sem dúvidas, projetos de universidades livres podem ser um caminho importante para tais processos. Só assim teremos condições de enfrentar as ameaças  presentes pelo fortalecimento do autoritarismo, da relativização da verdade e da alienação.

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