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UFRB: UM SOPRO DE VIDA

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Publicado: 02 Abril 2026

Paulo Gabriel Nacif

 

Poder acompanhar, desde o início e de um lugar privilegiado, o processo de ativação social, cultural, econômica e educacional desencadeado pela UFRB no Recôncavo foi uma das experiências mais desafiadoras — e também mais reveladoras — da minha vida intelectual e política.

Tive a oportunidade de observar o que acontece quando uma universidade pública deixa de ser apenas uma abstração institucional e passa a agir concretamente sobre um território.

O Recôncavo, nesse sentido, era um lugar especialmente fértil para essa observação.

Trata-se de uma região historicamente reconhecível, de forte densidade cultural, longa memória territorial e uma rede de municípios pequenos e médios suficientemente articulados para que os efeitos de uma instituição como a UFRB se tornassem visíveis em pouco tempo. Aqui, a universidade não se dissolveria numa massa urbana indistinta. Sua presença era perceptível, cotidiana, mensurável. E, pouco a pouco, tornou-se também transformadora.

Não me refiro apenas aos impactos mais imediatos, embora eles sejam reais e expressivos. Refiro-me a algo mais profundo: à maneira como a universidade começou a alterar disposições sociais, expectativas coletivas, fluxos econômicos, repertórios culturais e horizontes de futuro.

A chegada da UFRB introduziu no Recôncavo novas possibilidades. Passou a ser mais plausível, para milhares de famílias, imaginar trajetórias de formação superior que antes pareciam improváveis — ou simplesmente inalcançáveis. O compromisso social com a escolarização ganhou densidade. Consolidou-se a percepção de que o acesso ao conhecimento qualificado poderia deixar de ser um privilégio distante para integrar o horizonte ordinário da vida. Esse deslocamento, embora silencioso, é profundo.

Universidades não transformam apenas por aquilo que ensinam formalmente. Transformam também por aquilo que fazem uma sociedade passar a considerar possível. Com o tempo, tornou-se visível o surgimento de processos de reorganização territorial em torno da universidade.

Na esfera econômica a presença da UFRB passou a introduzir uma nova dinâmica de circulação de recursos. A remuneração de docentes e técnicos, os investimentos em obras e equipamentos, os contratos de custeio, os gastos estudantis, os projetos de pesquisa e extensão — tudo isso passou a compor um fluxo econômico relativamente estável e com forte capacidade de capilarização. 

Em cidades de menor porte, esse tipo de presença não é lateral. Ela altera o mercado imobiliário, pressiona os sistemas de transporte, reconfigura a oferta de serviços, amplia o consumo cultural, cria novas demandas urbanas e ativa setores antes adormecidos ou pouco sofisticados.

Habitação, alimentação, deslocamento, lazer, conectividade, comércio, hospedagem, prestação de serviços: em maior ou menor grau, tudo isso passou a se reorganizar em função da universidade.

O que mais me impressionou ao longo dos anos foi perceber como a universidade começava a fortalecer redes socioculturais, ampliar repertórios de participação e produzir novas formas de confiança compartilhada entre pessoas, grupos e instituições.

A presença da UFRB ajudou a criar, no Recôncavo, um ambiente mais propício à circulação de ideias, ao reconhecimento de competências, à valorização de trajetórias antes invisibilizadas e à construção de vínculos mais densos entre diferentes mundos sociais. 

Uma universidade pública muda um território também porque altera quem pode falar, quem pode circular, quem pode ocupar posições de visibilidade e quem passa a ser reconhecido como sujeito legítimo de conhecimento e intervenção.

No caso da UFRB, isso se tornou especialmente perceptível no fortalecimento de grupos historicamente subalternizados, de comunidades tradicionais e de setores sociais que, por muito tempo, permaneceram à margem dos processos formais de produção e validação do saber.

A universidade não modifica diretamente as estruturas de desigualdade das sociedades. Mas pode produzir deslocamentos importantes.

Vi, ao longo dos anos, nossos egressos começarem a ocupar espaços de destaque na gestão pública, saúde, cultura, educação, organização comunitária, produção esportiva e em iniciativas locais de inovação social, empreendedorismo e tecnologia. 

Em regiões historicamente atravessadas por hierarquias rígidas e por formas persistentes de exclusão, a circulação de novos sujeitos em posições de fala e decisão produz efeitos simbólicos e materiais profundos.

A universidade ajudou a fortalecer práticas de cidadania, amadureceu ambientes de debate público e ampliou o grau de participação qualificada em diferentes esferas da vida regional.

Com ela, eventos culturais passaram a surgir com maior frequência, grupos locais ganharam novas possibilidades de articulação, debates antes restritos a nichos específicos passaram a circular mais amplamente, e a própria noção de patrimônio — material e imaterial — passou a ser mobilizada de forma mais intensa e mais crítica.

Apesar de todos esses avanços, também pude perceber que as manifestações explícitas da vontade da universidade de atuar de forma mais orgânica em favor do desenvolvimento regional permaneceram, muitas vezes, mais no plano do discurso do que no das práticas efetivas. Esse é um problema real. E ele não decorre apenas de falta de vontade. Há razões estruturais para isso.

Por um lado, a própria universidade pública brasileira é uma instituição internamente fragmentada, marcada por forte especialização disciplinar, baixa cultura de convergência estratégica e um regime de trabalho em que a autonomia docente — indispensável e inegociável — quando não bem articulada, muitas vezes dificulta a construção de agendas institucionais de médio e longo prazo.

Por outro lado, os entes estatais que cercam a universidade — municípios, estados e, e menor grau, e a própria União — frequentemente não a enxergam como parceira de planejamento territorial ou formulação estratégica. Em geral, preferem vê-la sob a lógica mais estreita da prestação de serviços (laudos, consultorias, cursos, assessoria técnica, presença legitimadora em algum evento ou conselho).  Isso empobrece enormemente a relação.

A universidade, assim, é convocada a responder pontualmente a demandas dispersas, mas raramente é incorporada a projetos mais amplos de transformação regional.

A ausência de uma convergência mínima entre universidade, poder público e sociedade organizada leva a um subaproveitamento importante das potencialidades abertas pela implantação de uma universidade federal em um território como o Recôncavo. Criamos instituições potentes, mas raramente conseguimos organizá-las dentro de projetos históricos consistentes.

Ainda estamos longe de compreender, com rigor, a relação entre expansão da escolaridade e transformação efetiva da estrutura produtiva e social do país. Nas últimas décadas, o Brasil avançou significativamente em termos de acesso à educação. Mas esse avanço não foi acompanhado, na mesma proporção, por aumentos consistentes de produtividade, sofisticação econômica e reorganização estratégica do trabalho.

Em comparação com países como Chile e Coreia do Sul, por exemplo, ainda apresentamos uma dificuldade notável de converter mais anos de escolarização em ganhos robustos de eficiência sistêmica, inovação social e dinamismo produtivo.

Isso exige reflexão. Porque a mera ampliação do acesso à educação, embora civilizatória e indispensável, não se traduz automaticamente em desenvolvimento. Para que isso ocorra, é preciso que a educação esteja inserida em projetos mais amplos de reorganização nacional, regional e territorial. E é exatamente aí que tantas vezes fracassamos.

A experiência da Reitoria me proporcionou uma oportunidade rara de responsabilidade, debate, construção institucional e convivência com praticamente todos os campos do saber. A posição de liderança — especialmente numa instituição nascente — é, muitas vezes, profundamente solitária. Mas também é um lugar de aprendizagem intensiva.

Nunca tive dúvidas de que, do ponto de vista pessoal, aquele período me colocava numa condição privilegiada pois ao mesmo tempo em que participava da construção de uma nova universidade, eu também era permanentemente reconstruído por ela. 

Ao longo daqueles anos, acompanhei a chegada ao Recôncavo de mais de mil e setecentos professores e técnico-administrativos, pessoas que decidiram deslocar suas vidas para partilhar o sonho de construir uma universidade nova em uma região historicamente tão rica quanto negligenciada.

Vieram para o Recôncavo pesquisadores, técnicos, gestores, intelectuais e profissionais de altíssimo nível, muitos deles movidos não apenas por oportunidade funcional, mas por um desejo genuíno de participar de algo inaugural.

Conheci, nesse processo, profissionais realmente notáveis. Pessoas cuja presença renova, até hoje, minha confiança no futuro.

Para muitos, a possibilidade de construir uma instituição nova, liderar grupos de pesquisa e extensão, viver no interior, experimentar outras temporalidades urbanas e buscar uma qualidade de vida diferente funcionou como força de atração poderosa.

Acredito que, para a maioria, o encontro com o Recôncavo acabou oferecendo muito do que se buscava — ainda que, muitas vezes, também tenha exigido mais do que se imaginava.

Durante o período em que exerci o reitorado da UFRB, busquei participar, sempre que possível, da agenda nacional dos reitores das universidades federais, especialmente por meio da ANDIFES.

Integrei diferentes comissões e grupos de trabalho, mas uma das experiências que mais me marcaram foi a representação dos reitores brasileiros no processo de criação do Espaço de Encontro Latino-Americano e Caribenho de Educação Superior (ENLACES), uma plataforma voltada à articulação solidária da educação superior na América Latina e no Caribe.

Essa experiência me permitiu visitar boa parte dos países latino-americanos e caribenhos e conhecer, com relativo detalhe, suas estruturas universitárias, seus desafios e suas perspectivas. Foi uma aprendizagem extraordinária. Mas busquei, ao mesmo tempo, aproximar a UFRB de outro horizonte que sempre me pareceu estratégico: Portugal, África e o mundo da lusofonia.

Nos debates que antecederam a criação da universidade, eu sempre insistia no imenso potencial que o Recôncavo possuía para atrair para si essa agenda. Não se tratava de retórica diplomática. Tratava-se de uma percepção histórica e territorial muito concreta. Poucos lugares no Brasil possuem a densidade simbólica, a profundidade afro-atlântica e a legitimidade cultural do Recôncavo para sustentar uma relação orgânica e criativa com a África e com o universo lusófono.

Quando esteve em Cruz das Almas, em 2006, para o lançamento das primeiras obras da UFRB, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos encheu de esperança ao afirmar: “A Universidade do Recôncavo tem o dever de se aproximar da África.”

Alguns anos depois, em 25 de maio de 2009, no Dia da África, ao inaugurar a sede da UFRB em Cachoeira, Lula voltou ao tema — desta vez acompanhado do presidente do Senegal, Abdoulaye Wade. Aquilo nos animava. Parecia indicar que o Estado brasileiro percebia, ainda que parcialmente, o papel singular que a UFRB poderia desempenhar nesse campo. Nesse período, visitei alguns países e territórios associados à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e estabelecemos relações muito positivas com suas lideranças.

Recordo-me com especial nitidez de uma reunião em que o então secretário executivo da CPLP, o diplomata cabo-verdiano Luís de Matos Monteiro da Fonseca, nos disse ser especialmente estimulante ver uma universidade brasileira tão jovem, situada em um território tão emblemático quanto o Recôncavo, lançar-se com tanta intensidade na busca de uma associação orgânica com o universo lusófono.

Houve, de nossa parte, um esforço real para atrair apoio governamental que aprofundasse essa direção. Mas esse movimento acabou sendo deslocado com a criação da UNILAB, em 2010. Entendo perfeitamente as razões que levaram à criação de uma instituição específica para essa agenda. Inclusive, atuei para que um campus da UNILAB fosse instalado em São Francisco do Conde, no próprio Recôncavo.  Ainda assim, preciso admitir: a decisão do Ministério da Educação de não apostar estrategicamente na UFRB para desempenhar um papel mais estruturante na relação com a África permanece como uma das grandes frustrações do meu reitorado. Não por vaidade institucional. Mas porque continuo convencido de que o Recôncavo reunia — e ainda reúne — condições singulares para isso.

Como primeiro Reitor de uma universidade federal presente no interior da Bahia, a todo tempo era convidado a participar de atividades educativas, científicas e culturais no Estado. Considerava um dever histórico contribuir para transformar em algo habitual a presença da universidade federal, por meio do seu Reitor, na vida cultural do interior da Bahia. Nesse processo, apoiei, de maneira ativa, diversas iniciativas de campanhas de implantação de universidades federais e institutos federais em toda a Bahia, destacando-se aí as ações em prol da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - UNILAB, Universidade Federal do Sul da Bahia - UFSB, Universidade Federal do Oeste da Bahia - UFOB, os campi baianos da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF e campi de Institutos Federais. Outras campanhas, ainda sem sucesso, foram empreendidas em outras regiões e sempre que possível busquei estar presente. Cito aí as mobilizações na Chapada Diamantina e no nordeste da Bahia.

Quando da criação da UNILAB o senador Antônio Carlos Magalhães Junior corretamente destacou que era indispensável um campus da universidade em Salvador. Eu estava no momento em reunião com interlocutores baianos quando estes foram avisados de que o Presidente Lula tinha definido implantar esse campus baiano em Salvador. Não tive dúvidas em me atrever a dizer que considerava essa decisão um equívoco. O campus deveria ser implantado no Recôncavo. Fui alvo de piada: “Paulo, o Recôncavo é muito longe!” 

Logo ao sair da agenda liguei para o professor Marivaldo Amaral, então docente da UFRB e secretario da Prefeitura de São Francisco do Conde e disse para ele que era necessário conversar com a Prefeita Rilza Valentim para ela articular o campus para as terras franciscanas. Na minha rápida avaliação naquele momento Rilza era a única capaz de enfrentar essa disputa representando o nosso interior e particularmente o Recôncavo.

Ainda hoje me impressiona a agilidade da nossa Rilza. No dia seguinte ela me ligou e disse que tinha um jantar naquela noite em Brasília com o Reitor da UNILAB Paulo Speller. Detalhe: Ela me ligou 16:00 e ainda estava em Salvador. Após o jantar ela voltaria naquela mesma noite para a Bahia.

Após convencer o Reitor, Rilza começou o processo, duro, de convencimento das lideranças da Bahia. Certa feita, disposta a falar diretamente com o Ministro Fernando Haddad ela descobriu o hotel em que o Ministro se hospedaria no Ceará e ficou no mesmo hotel, deixando um assessor de prontidão para avisa-la da chegada do ministro no salão do café da manhã. Sentou com o Ministro e mostrou a viabilidade do campus em São Francisco do Conde e deu todas as garantias necessárias.

A cada passo ela me ligava exultante. Ela não descansou até conquistar o campus. Tenho muito orgulho de ter elaborado o documento que ela apresentou ao Governo Federal mostrando o interesse de São Francisco do Conde pelo campus da UNILAB. 

O campus da UNILAB em São Francisco do Conde foi inaugurado em 12 de maio de 2014, com a presença do então ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Eu estava ali, misturado entre dezenas de autoridades e solitariamente muito feliz e completo por saber o meu papel naquela conquista. Hoje quando acompanho os avanços do campus dos Malês sob a liderança da Professora Mirian Sumica Reis e a concretização da conquista da Universidade Federal África-Brasil bem sei que essas ações valem a pena.

Tive um papel importante na definição do campus sede da Universidade Federal do Sul da Bahia. Um dia, ao chegar no MEC um assessor do Ministro me mostrou a lista de novas universidades que seriam anunciadas no dia seguinte pela Presidenta Dilma e lá estava a UFSB, com três campi (Porto Seguro, Itabuna e Teixeira de Freitas) e a sede em Porto Seguro. Não obstante todo significado de Porto Seguro como a sede daquela universidade maantenho desde sempre uma relação muito estreita com Itabuna e bem sei do papel precursor dessa cidade em relação à organização das forças emancipatórias da Bahia, por isso considerei que era necessário, ao menos tentar articular a mudança da sede para a cidade grapiúna.

Liguei para o ex-Prefeito Geraldo Simões e disse para ele o que soube. Ele entendeu que aquilo era inaceitável e, após falar com o Ex-presidente lula, convencendo-o a intervir para mudar a sede da Universidade para as terras grapiúnas. No dia seguinte o anuncio foi feito com desejávamos. Estava lá em Itabuna na inauguração da nova Universidade e era muito gratificante saber o papel que tive para aquele momento.

O campus de Feira de Santana da UFRB também foi fruto de ação nos bastidores. Meu querido amigo e Secretário Executivo do MEC, Luiz Claudio, me informa que a UFRB ganharia o campus de Santo Amaro e a UFBA receberia o campus de Camaçari e Feira de Santana.  Eu disse para ele que aquilo era inaceitável, Feira de Santana e Camaçari deveriam ser da UFRB e usei todos os argumentos possíveis, abalando as convicções do Secretário. A seguir liguei para o Deputado Zé Neto e falei sobre a maior organicidade dos projetos de Feira de Santana com o Recôncavo e ele concordou e interviu. Assim, conseguimos o campus de Feira de Santana. A UFBA não abriu mão de Camaçari – mas eu tentei, tentei muito.

É isso. Sempre brinco que se temos a sorte de estar nos lugares especiais com Forest Gump (personagem do filme estadunidense de 1994), não podemos prescindir de incorporar o Exú Tranca Rua para abrir caminhos para que as nossas ideias passem. Neste último caso vale até mesmo embaralhar as ideias do mundo para que ele perca a sua linearidade óbvia. 

 

 

 

 

 

 

 

CRUZOS DE SABERES NAS ENCRUZILHADAS DO RECÔNCAVO

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Publicado: 29 Março 2026

 

Em todas as culturas, a encruzilhada permanece como um espaço de transição, escolha e poder — um território simbólico onde diferentes realidades se encontram e onde o destino pode ser alterado. Poucos lugares, no Brasil, expressam tão bem essa condição quanto o Recôncavo da Bahia. O Recôncavo é uma formação histórica, cultural e civilizatória marcada por encontros, conflitos, permanências, insurgências e reinvenções. E foi justamente nessa condição de encruzilhada que a experiência da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia se constituiu.

Desde o início, a UFRB precisava nascer como uma universidade capaz de disputar o próprio sentido da ideia de universidade no Brasil. Não bastava interiorizar vagas, multiplicar cursos ou desconcentrar equipamentos públicos. Era necessário construir uma instituição intelectualmente ousada, socialmente enraizada e civilizatoriamente consciente do território em que se inscrevia.

Lembro-me de uma audiência pública da campanha pela UFRB, realizada em Nazaré das Farinhas, em 2003. Um jovem professor, ligado ao Movimento Negro Unificado, disse algo leve e profundamente sério: “Com a UFRB, o Recôncavo será Wakanda!”

A metáfora me pareceu luminosa. Wakanda, o país africano fictício do universo Marvel, imaginado como uma civilização capaz de preservar sua identidade histórica e cultural ao mesmo tempo em que desenvolve altíssima sofisticação científica e tecnológica. Uma sociedade que soube escolher, com autonomia, o que incorporar do mundo e o que preservar de si mesma. Uma sociedade que, sem abrir mão da ancestralidade, foi capaz de produzir ciência de fronteira, invenção, soberania e futuro.

É isso que desejamos para o Recôncavo e para a universidade que ousa levar o seu nome: uma instituição capaz de apontar para um projeto de desenvolvimento que articule, de forma criativa e soberana, ciência radicalmente avançada e profundo respeito às ancestralidades que constituem o território. Não uma universidade que apenas acolha a diversidade como apêndice moral. Tampouco uma universidade colonizada, fascinada por modelos externos e incapaz de reconhecer a densidade epistêmica do chão onde pisa. O desafio é construir uma universidade capaz de fazer ciência de ponta sem romper com a memória longa do povo, uma universidade capaz de produzir futuro sem esquecer de suas raízes.

Esse foi o nosso delírio de realidade.

No fundo, essa talvez seja uma das questões centrais para qualquer reflexão consequente sobre o Brasil: como incorporar dimensões universais do conhecimento e da técnica sem abdicar das forças afirmativas do nosso modo de ser? Como produzir desenvolvimento material sem perder a espessura simbólica, histórica e espiritual que nos constitui? Como evitar tanto a recusa ressentida da modernidade quanto a submissão acrítica a modelos exógenos?

A busca por essa espécie de síntese Wakanda não é nova entre nós. Ela atravessa, de diferentes formas, a história intelectual brasileira. Talvez tenha encontrado em Oswald de Andrade a sua formulação mais potente, por meio da antropofagia cultural: a ideia de devorar o mundo para recriá-lo a partir de nós mesmos. Não se trata de cópia, nem de isolamento. Trata-se de incorporação crítica, seleção ativa, reelaboração criadora.

Essa questão reaparece de maneira interessante em um diálogo ocorrido no Roda Viva (TV Cultura), em 1996, quando Eduardo Giannetti da Fonseca perguntou a Caetano Veloso se não haveria um desencontro insuperável entre o nosso coração Yorubá, a nossa alegria de viver, a nossa espontaneidade e a aspiração aos valores básicos da vida civilizada moderna, como o respeito às leis e a realização dos valores republicanos. A resposta de Caetano foi extraordinária: mais do que combinar essas dimensões, o Brasil talvez tivesse a possibilidade de tomar posse da civilização e de incorporá-la sem sucumbir à frieza e à rigidez da vida moderna.

É precisamente esse o ponto. A questão não é escolher entre tradição e modernidade, entre ciência e cultura, entre tecnologia e ancestralidade. A questão é produzir uma síntese superior, intelectualmente exigente e historicamente enraizada. E é aqui que uma universidade como a UFRB ganha relevância estratégica.

A UFRB para estar à altura do Recôncavo, não pode ser tímida na construção da ciência. Não pode se contentar com a mera reprodução de currículos convencionais ou com a repetição subordinada de agendas científicas definidas em outros centros. Precisava ser radical na construção do conhecimento. Radical no sentido mais forte do termo: ir à raiz dos problemas, interrogar os fundamentos, deslocar os centros de legitimação, formular perguntas novas, abrir trilhas inéditas, produzir ciência rigorosa, original e internacionalmente dialogável a partir de um território historicamente subalternizado.

Mas essa radicalidade científica só fará sentido se vier acompanhada de uma radicalidade equivalente no respeito à ancestralidade. Não se trata de um gesto de deferência simbólica. Trata-se de reconhecer que os povos, práticas, cosmologias, linguagens, técnicas e pedagogias que constituem o Recôncavo são também fontes de inteligência histórica, formas de elaboração do mundo, modos densos de conhecimento, tecnologias sociais de longa duração, arquivos vivos de experiência civilizatória. Precisamos aprender a nos reorganizar a partir deles, sem abdicar da exigência científica, mas também sem impor a arrogância epistemológica de quem acredita que só há conhecimento legítimo sob a forma disciplinar moderna.

Foi exatamente esse o horizonte que, em alguma medida, buscamos construir na UFRB. Desde o início, a universidade se apresentou como lugar de encontro entre movimentos, demandas sociais, sujeitos históricos e formas diversas de produção do saber. Aqui se encontraram os movimentos do campo e da reforma agrária, a educação do campo, o movimento negro, as comunidades quilombolas, indígenas, as lutas por inclusão e educação especial, os projetos de formação de professores, as demandas da saúde pública, engenharia, cultura  e sustentabilidade.

Esses encontros não foram laterais nem decorativos. Eles moldaram a identidade da instituição. A universidade não se limitou a recebê-los; foi se constituindo por eles. E isso é decisivo. Porque uma universidade verdadeiramente viva não é apenas aquela que produz conhecimento sobre a sociedade, mas também aquela que se deixa interpelar por ela, que se reorganiza a partir das suas urgências históricas, que aceita ser deslocada pelas vozes que chegam das margens e pelos mundos que a ciência institucionalizada, muitas vezes, não soube escutar.

Sempre nos pareceu fundamental afirmar algo que por vezes é mal compreendido: o reconhecimento dos saberes populares, territoriais e ancestrais jamais significou recusa à ciência moderna.  Sempre consideramos essencial apoiar também o desenvolvimento da ciência básica, das formações mais ortodoxas, da pesquisa laboratorial rigorosa, da excelência técnica, da produção acadêmica com capacidade de interlocução universal.

Uma universidade Wakandiana é aquela capaz de desenvolver biotecnologia, medicina, engenharia, agricultura, artes, humanidades e inovação sem precisar cortar as suas ligações com a memória profunda dos povos que a sustentam.

Isso exige mais do que políticas de acesso, embora elas sejam decisivas. Exige mais do que cotas, mais do que programas de permanência, mais do que inclusão curricular pontual. Exige um projeto institucional explícito, traduzido nas suas ações pedagógicas e administrativas, capaz de traduzir o tipo de futuro que queremos ajudar a construir.

Toda universidade responde a essa pergunta, queira ou não. Responde em seus currículos, em seus cursos, em seus silêncios, em suas prioridades de pesquisa, em sua concepção de excelência, em suas alianças institucionais e em seus critérios de reconhecimento. O que deve nos diferenciar é a consciência da resposta que ofereceremos.

A tarefa da UFRB, desde a sua origem, é precisamente essa: não apenas levar a universidade ao Recôncavo, mas permitir que o Recôncavo  transforme a ideia de universidade.

 
 

Ubiratan e Claudionor

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Publicado: 07 Janeiro 2026

 

Claudionor Viana Teles Velloso e Ubiratan Castro de Araújo são duas figuras fundamentais para entender a história e projetar o futuro da UFRB. Dona Canô nasceu em Santo Amaro, em 16 de setembro de 1907, e permaneceu nesta terra até 25 de dezembro de 2012. Nosso "Bira Gordo" nasceu em Salvador, no dia 22 de dezembro de 1948, e, em 3 de janeiro de 2013, partiu para contar histórias no Orun.
 
 
Nesta época do ano, a saudade dos dois sempre se faz presente. Dona Canô nunca deixou o Recôncavo; ao cantar sua aldeia de forma singular, ensinou-nos valores universais. Já Bira, com sua sólida formação acadêmica universalista, colocou o conhecimento a serviço do povo, buscando explicar, traduzir e transformar o Recôncavo, a Bahia e o Brasil em lugares mais justos — onde diversidade não rimasse com injustiça ou desigualdade. Ele singularizou o universal.
 
 
Ubiratan Castro orientou a dissertação de mestrado de Maria Antonieta de Campos Tourinho, que estudou o Imperial Instituto Agrícola (do qual a UFRB descende diretamente). Trata-se de um texto incontornável para compreender nossa história. Em 2009, durante a celebração dos 150 anos de criação do Imperial Instituto, o professor Ubiratan proferiu, em Cruz das Almas, uma de suas magníficas conferências.
 
 
É admirável pensar que essas duas figuras estiveram reunidas defendendo a criação da UFRB. Em diversos momentos, caminharam juntos em nossa odisseia. Dona Canô representou a cidadania ativa e altiva, usando seu encanto para interceder pelo nosso povo junto a autoridades que sempre lhe prestaram homenagens. Bira, com sua capacidade de síntese acadêmica, muniu-nos de argumentos irrefutáveis.

Cada um a seu modo, conseguiram unir a excelência acadêmica à luta pela inclusão e pelo respeito à diversidade como partes essenciais de suas trajetórias. Deixaram, por meio de seus exemplos, esse desafio para as gerações futuras. Toda instituição precisa de símbolos fundadores, e a UFRB é pródiga nesse quesito. É motivo de muito orgulho para nossa comunidade saber que nossos alicerces se assentam em experiências humanas tão ricas. Vidas que merecem ser lembradas e celebradas!
Carl Sagan tem uma frase que certamente podemos dedicar a cada uma dessas entidades icônicas: “Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.”
 
 
 

A UFRB E A ARTE DO ENCONTRO

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Publicado: 15 Novembro 2025

Paulo Gabriel Soledade Nacif

 

No encontro com gente de todo os lugares, isso é recorrente.

Pessoas das mais diversas regiões. Pessoas das mais variadas crenças. Pessoas de diversas posições sociais. De todas as culturas.

É incrível a forma viva como elas se dirigem a mim.

Usam uma maneira muito cúmplice.

Querem espreitar a minha alma?

 Elas olham nos meus olhos.

Muitas me apertam os braços e, às vezes, até dói.

Uns demonstram uma proximidade que me deixa encabulado.

Alguns gritam, outros murmuram no meu ouvido.

Eu juro que não sei direito como improvisar a resposta na mesma vibração.

Na maioria das vezes é tudo inesperado.

Surpresa, mesmo.

Isso me deixa até pensativo, com peso na consciência por não saber retribuir.

Eis que de onde eu menos espero vem aquela pessoa próxima, quase próxima, distante ou muito distante, atravessando um assunto, parando a fila, deixando o meu uber esperar, fazendo Sofia dar risada. E então, com toda intimidade, a criatura fala, grita, sussurra:

- A nossa UFRB deu certo, hein, Professor Paulo Gabriel? Deu certo!

Essa expressão varia, mas o sentido é sempre o mesmo.

E assim vou aprendendo uma nova lição da arte do encontro.

A poesia do encontro do presente ancestral, carregado de futuro!

Edital de Convocação para Assembleia Geral de Associação

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Publicado: 25 Agosto 2025

Acesse o edital.

  1. Recôncavo Ancestral: O Colecionador de Fins dos Tempos
  2. UFRB: UMA ESTRELA DO SUL GLOBAL
  3. Edital de Convocação para Assembleia Geral de Associação
  4. Edital de Convocação para Assembleia Geral de Associação

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